A ideia é que sejamos muitos para falar de samba, prontidão e outras bossas, de nossas coisas, de coisas nossas, conforme em 1932 compôs Noel Rosa, esse excepcional compositor brasileiro que trouxe alegria e inspiração a várias gerações e a quem pedimos que apadrinhe este sítio.

A ideia de coisas nossas, nossas coisas já estava presente no sitio anterior, o msc, criado em 2002 (e já desativado), quando o .com.br era restrito a pessoas jurídicas. Portanto, ficou como msc.jor.br – de jornalista, formação e profissão deste escriba, cujo nome responde pelas iniciais msc. No sítio virou minhas, suas coisas. Com o .com.br aberto a pessoas físicas, foi feita a migração, mas mantida a ideia de juntar minhas e suas coisas.

A busca pelo novo nome navegou por diversas praias, mas sempre com a intenção de coisa nossa, que dissesse sobre valores, ideias e interesses que pudessem aglutinar pessoas brasileiras em busca de sair da superficialidade, que tentasse mergulho, que não se contentasse com a superfície da informação que nos é oferecida dia a dia. Alguns nomes escolhidos já haviam virado domínios registrados no registro.br.

Ai surgiu o nossasbossas. Bossa é uma palavra interessante: chega ao português, nos explica o mestre Houaiss, pelo francês (boce em francês antigo). Bottia, do período pré-romano na Península Ibérica, já se referia a “tendência, propensão, disposição”. Bossa também é protuberância. As corcovas do camelo, por exemplo, ou uma saliência qualquer no corpo. No Brasil, além do uso por Noel, bossa destaca-se por nomear o movimento musical surgido nos anos 1950/1960, a Bossa Nova. Inicialmente referia-se à forma de cantar e tocar samba, quebrando o paradigma do formalismo e dos vozeirões dos cantores da época.

Curioso também é que tanto Noel de Medeiros Rosa como a Bossa Nova expressam momentos especiais de transição da sociedade brasileira e se projetam a partir da cidade do Rio de Janeiro, principal centro de irradiação cultural do país: as transformações decorrentes da Revolução de 30 e aquelas posteriores à Segunda Grande Guerra, respectivamente. Na música, Noel afasta o samba do ritmo do maxixe, “dando uma pontuação mais elaborada e em sintonia com o processo de urbanização” (conforme Antonio Pedro Tota, em “Cultura, política e modernidade em Noel Rosa”), e a Bossa Nova o aproxima do jazz surgido nos Estados Unidos.

Os dois contextos são distintos. Se pudêssemos fazer um paralelo, o momento estético de Noel seria representado, na política, por Getúlio Vargas. Uma tentativa de construir um projeto de nação que rompesse com o atraso do latifúndio, sua política do café com leite e com a dependência externa. Getúlio busca um projeto de conciliação de classes: socializa o prejuízo do latifúndio, financia o patronato urbano com programas de incentivo à industrialização e coopta o proletariado urbano com direitos sociais. Tenta enfrentar o capital internacional. Essa contradição permeou o período de Getúlio e esteve expressa na estética de Noel, conforme trecho do professor Tota: “Os duelos baudelerianos davam-se entre o proletariado-esgrimista e a modernidade burguesa que o gestava e o aniquilava de um só golpe (Berman, 1989). No Brasil, Noel se aproxima mais da proposta oswaldiana, que apresenta o boêmio (sou do sereno) como o contrário do burguês e não o proletário clássico, expropriado da mais valia marxista.” Ainda recorrendo a Tota: “Noel é o crítico da sociedade burguesa e de suas contradições em meio ao impacto da modernidade. Burguesia que carecia de uma verdadeira identidade burguesa, isto é, sem a tradição das burguesias forjadas nas lutas liberais de moldes europeus. Daí sua tendência ao mimetismo. Pode-se dizer que essa classe média só vai adquirir identidade com a futilidade proporcionada pela mídia impressa, radiofonisada e depois televisiva das décadas de 50 e 60”.

Exatamente quando entra em cena a Bossa Nova, representando um momento que poderia ter como símbolo político Juscelino Kubitschek e a opção por um novo tipo de desenvolvimento com aprofundamento do endividamento e a simbólica abertura do mercado para as indústrias automobilísticas. E uma das identidades dessa época é a Bossa Nova que, no dizer de José Ramos Tinhorão, é produto “de uma classe média carioca ligada ao jazz”. Segundo Tinhorão, “os brasileiros ofereceram aos norte-americanos uma nova visão da sua própria música”. Se não fosse mais, somente isso seria suficiente para reconhecer a bossa brasileira nessa reinterpretação. Essa absorção de elementos do jazz combina perfeitamente com a abertura da economia, com o ambiente de liberdade e com a explosão da classe média na era JK.

Esses dois projetos continuam se enfrentando até que os militares, em 1964, resolvem a questão e põem fim a essas e outras bossas.

Junto com as outras bossas de Noel, estavam também o samba e a prontidão. Para o professor Tota, “o termo prontidão é usado com um claro sentido indicador da miséria, condição da maioria da população brasileira”. Pronto é sinônimo de duro, sem dinheiro. Da letra de Noel: “Baleiro, jornaleiro/ Motorneiro, condutor e passageiro/ Prestamista e vigarista/ E o bonde que parece uma carroça/ Coisa nossa, coisa nossa”. São, destaca Tota, “personagens urbanos, vivendo no limite do miserê (miséria), corporificados nas "profissões", no cotidiano. Profissões de deserdados, de um lumpenproletariado subproduto da modernidade. Baleiro e jornaleiro – "profissões" de homens sem profissão”.

Mas prontidão, também, lembra outro professor, José Miguel Wisnik, em seu “Veneno Remédio: o futebol e o Brasil”, “é o significante do desembaraço, da desenvoltura, da capacidade de improvisação”. Assim, conclui: “é um traço de excesso e de carência, de mais e de menos. Para jogar o jogo que ela instaura, temos de suportar o fato de que a palavra diz ao mesmo tempo uma coisa (o desembaraço), a outra (a pobreza), e ainda outra: o ponto mais-que-irônico em que esses sentidos opostos se somam e se abolem, sem se reduzir.

A linguagem é afirmada no seu ponto de suspensão: não é fixada na letra, mas deliza indeterminada, somando-se a outras bossas”. Wisnik continua destacando que bossa, no Brasil,virou significante de “um 'patrimônio imaterial' de difícil nomeação: a ginga, o jeito, a disposição a habitar o intervalo do ritmo, os hiatos da linguagem, os meneios do corpo, ou seja, um equivalente mais qualificado de prontidão. Pode-se dizer que a bossa é uma prontidão avisada, que conhece os atalhos do tempo e do espaço, que vai sem pressa e sem abrir mão da graça e da malícia”.

Essa “prontidão avisada”, essa bossa, esse nosso “patrimônio imaterial” são o nosso veneno e nosso remédio, ou, ainda, nosso remédio e nosso veneno, ou nosso remédio-veneno ou nosso veneno-remédio. O que Wisnik diz sobre futebol serve para o nosso caso: “nessa corda bamba entre duas posições insuficientes é preciso não cair, por um lado, na apologia das qualidades inefáveis do futebol e da versatilidade nacional, sem perguntar como elas se historicizam. E não cair, por outro, no mero exame das condições externas em que o futebol se realiza, sem entrar no mérito arriscado de saber em que é que ele consiste. (O equilíbrio tem de se fazer, justamente, compensando a queda para os dois lados, de modo que saber cair nos dois riscos seja a condição para não cair da corda)”.

Esse andar na corda bamba e correr riscos é a própria vida. E não se tem feito outra coisa neste país e em nossa história. Não somos os escolhidos por Deus (Deus é brasileiro), mas também não estamos fadados ao fracasso eterno por termos sido colonizados por portugueses e muito menos não somos sérios - para ficar somente em alguns esteriótipos.

Somos sim fruto de um processo histórico. E é isso que deveria estar em questão. Esse equilíbrio na corda bamba, que não deve ser visto como imparcialidade, e essa busca por respostas e alternativas são objetivos deste outrasbossas.com.br. Pois, como Noel, estamos aqui indignados com a modernidade que exclui e somos saudosistas sim do lúdico e do prazer em fazer, em saber e em ser. Quem estiver pronto, que venha conosco.

Mário Simões

O Noel ai em cima é arte de João Apoena sobre desenho de Elifas Andreato para a coleção "Noel Pela Primeira Vez", a partir de desenho do próprio Noel.

Publicado em Para Guardar

Neste texto de 2013, Breno Altman fala sobre o muro social e a cerca étnica em Israel. De um lado, alguns intelectuais e líderes sionistas mais à esquerda chegam a dizer que Israel caminha perigosamente para um modelo inspirado pelo apartheid sul-africano. Por outro, as correntes mais à direita, no governo, rejeitam a comparação e afirmam que Israel somente se adapta às necessidades do combate ao terror. Apesar de seus muros e cercas, Israel exibe vitalidade econômica e poderio tecnológico. Vive, contudo, os conflitos de um sistema que produz desigualdade social, discriminação étnica e tentação colonial.

Publicado em Internacional

Mais de uma década depois, o Fundo Monetário Internacional (FMI) dá a volta por cima na América do Sul. Os dois principais países do continente, dominados por governos conservadores, Brasil e Argentina, estendem novamente a mão para o organismo. Mauricio Macri, nove meses depois de assumir a presidência da Argentina, reconhece que suas políticas geraram 1,4 milhão de novos pobres. Macri recebeu apoio do FMI na mesma data que representantes do Fundo estiveram em Brasília, reunidos com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Elogiaram o novo governo e apresentaram sugestões para o futuro do país. O FMI retorna, mas não pode fugir de sua história: "continua tendo um passado na Argentina e em toda a América Latina que o transformou, aos olhos de milhões de latino-americanos, em um dos responsáveis pela grande crise dos anos 90”.

Publicado em Internacional

Neste mês de outubro, exatamente no dia 16, completam-se 48 anos do mais famoso protesto político feito em um pódio olímpico. Era a premiação dos 200 metros livres nos Jogos Olímpicos do México, em 1968. Dois atletas afro-americanos, Tommie “o Jato” Smith e John Carlos, levantam seus punhos cerrados, envoltos em luvas negras, durante o hino nacional dos Estados Unidos. Os dois faziam parte do OPHR, as iniciais em inglês de Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos. E a saudação havia sido popularizada pelos Panteras Negras, que também neste outubro completariam 50 anos de fundação, não tivessem sido dizimados pelo FBI, com o apoio das polícias locais, que até hoje ocupam as manchetes por assassinar negros. A ação envolveu o governo e a justiça dos EUA no esforço de destruir os Panteras Negras. Mas uma nova geração de militantes está nas ruas.

Publicado em Internacional

A proximidade das eleições presidenciais de 2014 suscita debates diversos. Um dos aspectos cruciais de qualquer programa de governo é o papel do Estado no projeto de país de cada candidato. O PT de Dilma, o PSDB de Aécio e o PSB de Marina têm significativas divergências nessa questão. A história da Companhia Vale do Rio Doce é emblemática para se conhecer o que fez o PSDB e projetar o que podem vir a fazer Aécio e Marina, pois os dois têm políticas econômicas orientadas por economistas ligados ao PSDB. Particularmente o caso da Vale ajuda a entender como foi usado o BNDES e como o PSDB tratou uma das maiores empresas brasileiras, privatizada em 1997.

Publicado em Economia

A lei de terceirização foi aprovada dia 22 na Câmara dos Deputados exatamente um dia depois dos 16 anos da tragédia da P-36, a maior plataforma de extração de petróleo do mundo à época, afundada em 21 de março de 2001. Na quarta-feira, dia 15, exatamente 16 anos após o acidente que levaria P-36 para o fundo do mar, foi a vez do plenário do Tribunal de Contas da União (TCU) render-se aos interesses do mercado e decidir pela revogação da medida cautelar que impedia a venda de ativos da Petrobras. A partir da decisão do TCU a privatização da BR Distribuidora pode ser deslanchada, independentemente da legislação em vigor.

A coincidência, no entanto, não se restringe às datas. A terceirização e o processo de privatização “branca” que tem atingido a Petrobras após o Golpe de 2016 remetem ao lamentável episódio da plataforma P-36. Se há semelhança de fatos, os protagonistas são os mesmos: o núcleo duro do PSDB, que só vê futuro para o Brasil na condição de colônia dos EUA.

Publicado em Economia

Alguém se lembraria hoje do que fazia na semana de 11 a 18 janeiro de 2012? Possivelmente não, mas se era usuário em inglês do Facebook poderia estar sendo usado como cobaia pela rede social. Naquele período, foi realizada uma pesquisa com 689.003 pessoas. Ninguém foi informado que participava de um experimento sobre “contágio emocional” por meio das redes sociais. Manipulando as postagem visualizadas pelos usuários, o Facebook criou critérios para enquadrar as manifestações posteriores e avaliar se os internautas seriam influenciados se recebessem estímulos negativos ou positivos.

Publicado em Ciências

Seu tablet Galaxy a impulsionou ao topo do mercado, a ponto de ultrapassar a Apple. A Samsung e sua concorrente travam uma guerra sem piedade diante dos tribunais. Mas, para além da eletrônica, o grupo sul-coreano constitui um conglomerado tão potente que influencia a política, a justiça e a imprensa de seu país.

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