A entrevista com Ariano Suassuna iniciou-se na Secretaria de Cultura de Pernambuco e foi encerrada na sua casa, na Rua do Chacon. E duas histórias não entraram no texto original. Fui recebido por Ariano, que vestia uma camisa branca de algodão. No bolso, estava pintado o “seu” símbolo do PSB: “Canudos foi, até hoje, o lugar onde o povo se expressou sem nenhuma imposição de fora nem de cima. Acho Antônio Conselheiro uma figura da maior importância. E o regime lá era socialista. A bandeira que eles usavam era do Divino Espírito Santo. Um dos motivos por que entrei no PSB foi essa simbologia. O meu socialismo é o de Canudos. O pombo deste jeito aqui (mostra o bolso da camisa), dentro do sol, voando da direta para a esquerda. O meu símbolo do PSB é este”.

Ao ser questionado se teria a imagem para ilustrar a matéria, me convidou até a casa dele. Num gesto de desprendimento, arrancou o bolso da camisa com a imagem publicada aqui.

Ariano era sempre questionado sobre seus conceitos e ideias sobre arte. Entre os muitos casos e exemplos que contou na entrevista, disse que debatia com um repórter da Folha de São Paulo sobre arte, exatamente desmistificando os conceitos de arte como ressalta na entrevista. Fez um desafio. Apresentou duas figuras e pediu que o jornalista indicasse qual seria a arte moderna. Segundo Ariano, o rapaz escolheu uma pintura ruprestre.

A história de Ariano desnuda exatamente a relação que a Folha de S. Paulo tem com a arte e cultura: o popular é o pitoresco e o folclórico, o maior espaço é para os grandes eventos nacionais e, principalmente, internacionais. Descaracterizando, assim, para usar a linguagem de Ariano, nossa cultura - grande contribuição do “jornal a serviço do Brasil”.

No texto abaixo, Ariano também refere-se a Canudos.

Ariano Suassuna: Esquerda e Direita

Publicado no sítio eletrônico do MST em 24 de julho de 2014

Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.

Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi santa Teresa de Ávila.

Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita.

Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.

De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”.

Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”.

Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade).

Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

Publicado em Para Guardar

A ideia é que sejamos muitos para falar de samba, prontidão e outras bossas, de nossas coisas, de coisas nossas, conforme em 1932 compôs Noel Rosa, esse excepcional compositor brasileiro que trouxe alegria e inspiração a várias gerações e a quem pedimos que apadrinhe este sítio.

A ideia de coisas nossas, nossas coisas já estava presente no sitio anterior, o msc, criado em 2002 (e já desativado), quando o .com.br era restrito a pessoas jurídicas. Portanto, ficou como msc.jor.br – de jornalista, formação e profissão deste escriba, cujo nome responde pelas iniciais msc. No sítio virou minhas, suas coisas. Com o .com.br aberto a pessoas físicas, foi feita a migração, mas mantida a ideia de juntar minhas e suas coisas.

A busca pelo novo nome navegou por diversas praias, mas sempre com a intenção de coisa nossa, que dissesse sobre valores, ideias e interesses que pudessem aglutinar pessoas brasileiras em busca de sair da superficialidade, que tentasse mergulho, que não se contentasse com a superfície da informação que nos é oferecida dia a dia. Alguns nomes escolhidos já haviam virado domínios registrados no registro.br.

Ai surgiu o nossasbossas. Bossa é uma palavra interessante: chega ao português, nos explica o mestre Houaiss, pelo francês (boce em francês antigo). Bottia, do período pré-romano na Península Ibérica, já se referia a “tendência, propensão, disposição”. Bossa também é protuberância. As corcovas do camelo, por exemplo, ou uma saliência qualquer no corpo. No Brasil, além do uso por Noel, bossa destaca-se por nomear o movimento musical surgido nos anos 1950/1960, a Bossa Nova. Inicialmente referia-se à forma de cantar e tocar samba, quebrando o paradigma do formalismo e dos vozeirões dos cantores da época.

Curioso também é que tanto Noel de Medeiros Rosa como a Bossa Nova expressam momentos especiais de transição da sociedade brasileira e se projetam a partir da cidade do Rio de Janeiro, principal centro de irradiação cultural do país: as transformações decorrentes da Revolução de 30 e aquelas posteriores à Segunda Grande Guerra, respectivamente. Na música, Noel afasta o samba do ritmo do maxixe, “dando uma pontuação mais elaborada e em sintonia com o processo de urbanização” (conforme Antonio Pedro Tota, em “Cultura, política e modernidade em Noel Rosa”), e a Bossa Nova o aproxima do jazz surgido nos Estados Unidos.

Os dois contextos são distintos. Se pudêssemos fazer um paralelo, o momento estético de Noel seria representado, na política, por Getúlio Vargas. Uma tentativa de construir um projeto de nação que rompesse com o atraso do latifúndio, sua política do café com leite e com a dependência externa. Getúlio busca um projeto de conciliação de classes: socializa o prejuízo do latifúndio, financia o patronato urbano com programas de incentivo à industrialização e coopta o proletariado urbano com direitos sociais. Tenta enfrentar o capital internacional. Essa contradição permeou o período de Getúlio e esteve expressa na estética de Noel, conforme trecho do professor Tota: “Os duelos baudelerianos davam-se entre o proletariado-esgrimista e a modernidade burguesa que o gestava e o aniquilava de um só golpe (Berman, 1989). No Brasil, Noel se aproxima mais da proposta oswaldiana, que apresenta o boêmio (sou do sereno) como o contrário do burguês e não o proletário clássico, expropriado da mais valia marxista.” Ainda recorrendo a Tota: “Noel é o crítico da sociedade burguesa e de suas contradições em meio ao impacto da modernidade. Burguesia que carecia de uma verdadeira identidade burguesa, isto é, sem a tradição das burguesias forjadas nas lutas liberais de moldes europeus. Daí sua tendência ao mimetismo. Pode-se dizer que essa classe média só vai adquirir identidade com a futilidade proporcionada pela mídia impressa, radiofonisada e depois televisiva das décadas de 50 e 60”.

Exatamente quando entra em cena a Bossa Nova, representando um momento que poderia ter como símbolo político Juscelino Kubitschek e a opção por um novo tipo de desenvolvimento com aprofundamento do endividamento e a simbólica abertura do mercado para as indústrias automobilísticas. E uma das identidades dessa época é a Bossa Nova que, no dizer de José Ramos Tinhorão, é produto “de uma classe média carioca ligada ao jazz”. Segundo Tinhorão, “os brasileiros ofereceram aos norte-americanos uma nova visão da sua própria música”. Se não fosse mais, somente isso seria suficiente para reconhecer a bossa brasileira nessa reinterpretação. Essa absorção de elementos do jazz combina perfeitamente com a abertura da economia, com o ambiente de liberdade e com a explosão da classe média na era JK.

Esses dois projetos continuam se enfrentando até que os militares, em 1964, resolvem a questão e põem fim a essas e outras bossas.

Junto com as outras bossas de Noel, estavam também o samba e a prontidão. Para o professor Tota, “o termo prontidão é usado com um claro sentido indicador da miséria, condição da maioria da população brasileira”. Pronto é sinônimo de duro, sem dinheiro. Da letra de Noel: “Baleiro, jornaleiro/ Motorneiro, condutor e passageiro/ Prestamista e vigarista/ E o bonde que parece uma carroça/ Coisa nossa, coisa nossa”. São, destaca Tota, “personagens urbanos, vivendo no limite do miserê (miséria), corporificados nas "profissões", no cotidiano. Profissões de deserdados, de um lumpenproletariado subproduto da modernidade. Baleiro e jornaleiro – "profissões" de homens sem profissão”.

Mas prontidão, também, lembra outro professor, José Miguel Wisnik, em seu “Veneno Remédio: o futebol e o Brasil”, “é o significante do desembaraço, da desenvoltura, da capacidade de improvisação”. Assim, conclui: “é um traço de excesso e de carência, de mais e de menos. Para jogar o jogo que ela instaura, temos de suportar o fato de que a palavra diz ao mesmo tempo uma coisa (o desembaraço), a outra (a pobreza), e ainda outra: o ponto mais-que-irônico em que esses sentidos opostos se somam e se abolem, sem se reduzir.

A linguagem é afirmada no seu ponto de suspensão: não é fixada na letra, mas deliza indeterminada, somando-se a outras bossas”. Wisnik continua destacando que bossa, no Brasil,virou significante de “um 'patrimônio imaterial' de difícil nomeação: a ginga, o jeito, a disposição a habitar o intervalo do ritmo, os hiatos da linguagem, os meneios do corpo, ou seja, um equivalente mais qualificado de prontidão. Pode-se dizer que a bossa é uma prontidão avisada, que conhece os atalhos do tempo e do espaço, que vai sem pressa e sem abrir mão da graça e da malícia”.

Essa “prontidão avisada”, essa bossa, esse nosso “patrimônio imaterial” são o nosso veneno e nosso remédio, ou, ainda, nosso remédio e nosso veneno, ou nosso remédio-veneno ou nosso veneno-remédio. O que Wisnik diz sobre futebol serve para o nosso caso: “nessa corda bamba entre duas posições insuficientes é preciso não cair, por um lado, na apologia das qualidades inefáveis do futebol e da versatilidade nacional, sem perguntar como elas se historicizam. E não cair, por outro, no mero exame das condições externas em que o futebol se realiza, sem entrar no mérito arriscado de saber em que é que ele consiste. (O equilíbrio tem de se fazer, justamente, compensando a queda para os dois lados, de modo que saber cair nos dois riscos seja a condição para não cair da corda)”.

Esse andar na corda bamba e correr riscos é a própria vida. E não se tem feito outra coisa neste país e em nossa história. Não somos os escolhidos por Deus (Deus é brasileiro), mas também não estamos fadados ao fracasso eterno por termos sido colonizados por portugueses e muito menos não somos sérios - para ficar somente em alguns esteriótipos.

Somos sim fruto de um processo histórico. E é isso que deveria estar em questão. Esse equilíbrio na corda bamba, que não deve ser visto como imparcialidade, e essa busca por respostas e alternativas são objetivos deste outrasbossas.com.br. Pois, como Noel, estamos aqui indignados com a modernidade que exclui e somos saudosistas sim do lúdico e do prazer em fazer, em saber e em ser. Quem estiver pronto, que venha conosco.

Mário Simões

O Noel ai em cima é arte de João Apoena sobre desenho de Elifas Andreato para a coleção "Noel Pela Primeira Vez", a partir de desenho do próprio Noel.

Publicado em Para Guardar

A Ritalina é uma droga indicada para alguns pacientes diagnosticados com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). No entanto, o seu uso está tão disseminado que a quantidade de diagnósticos de TDAH indica, falsamente, que o mundo vive uma epidemia. Mais do que isso, a Ritalina tem uma história polêmica. No começo, era usada para preparar crianças dos EUA para competir com os comunistas soviéticos, agora, a Ritalina cerra fileiras contra as "crianças problemáticas ou más" e é usada por muitos adultos simplesmente para aumentar a concentração em tarefas e situações corriqueiras da vida.

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