Os embaixadores representam seu país e defendem seus interesses. Com os EUA não é diferente. A diplomacia americana, no entanto, ganhou um nível excepcional de especialização. Analisando o perfil dos três últimos embaixadores no Brasil, é possível perceber o zelo e a precisão na escolha e a perfeita sintonia com a realidade brasileira e com os objetivos norte-americanos no Brasil e na região. A chegada de Liliana Ayalde para o lugar anteriormente ocupado por Thomas Shannon e sua substituição por Peter Michael McKinley revelam um trabalho cuidadoso, objetivamente direcionado para fins específicos.

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Mais de uma década depois, o Fundo Monetário Internacional (FMI) dá a volta por cima na América do Sul. Os dois principais países do continente, dominados por governos conservadores, Brasil e Argentina, estendem novamente a mão para o organismo. Mauricio Macri, nove meses depois de assumir a presidência da Argentina, reconhece que suas políticas geraram 1,4 milhão de novos pobres. Macri recebeu apoio do FMI na mesma data que representantes do Fundo estiveram em Brasília, reunidos com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Elogiaram o novo governo e apresentaram sugestões para o futuro do país. O FMI retorna, mas não pode fugir de sua história: "continua tendo um passado na Argentina e em toda a América Latina que o transformou, aos olhos de milhões de latino-americanos, em um dos responsáveis pela grande crise dos anos 90”.

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Juan Guaidó é o produto de um projeto de uma década supervisionado pelos assessores de elite de Washington para mudanças de governos. Apesar de se apresentar como um campeão da democracia, ele passou anos à frente de uma violenta campanha de desestabilização do chavismo.

Antes do fatídico dia 22 de janeiro [quando Guaidó autoproclamou-se presidente da Venezuela], menos de um em cada cinco venezuelanos já tinha ouvido falar de Juan Guaidó. Até uns poucos meses atrás, este homem de 35 anos era uma personagem obscura em um grupo de extrema direita politicamente marginal, estreitamente associado com atos espantosos de violência de rua. Mesmo em seu próprio partido, Guaidó era uma figura de nível médio na Assembleia Nacional, dominada pela oposição, que agora se encontra submetida a desacato, segundo a Constituição da Venezuela [por desrespeitar decisão do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ)].

Guaidó até algumas semanas era um dirigente
desconhecido da maioria dos venezuelanos. (Foto: AFP)

Bastou um só telefonema do vice-presidente dos EUA, Mike Pence, para Guaidó autoproclamar-se presidente da Venezuela. Ungido com líder de seu país por Washington, um político previamente desconhecido foi transportado ao cenário internacional com o líder selecionado pelos Estados Unidos para a não com as maiores reservas de petróleo do mundo.

Fazendo eco ao Consenso de Washington, o comitê editorial do New York Times classificou Guaidó como um “rival à altura” (“credible rival”) para Maduro com um “estilo refrescante e uma visão de levar o país à frente”. O comitê editorial de Bloomberg News o aplaudiu por buscar a “restauração da democracia” e o Wall Street Journal o declarou “um novo líder democrático”. Enquanto isso, o Canadá, numerosas nações europeias, Israel e o bloco de governos de direita latino-americanos conhecidos como Grupo Lima reconheceram Guaidó como o líder legítimo da Venezuela.

Embora Guaidó pareça ter se materializado do nada, ele era, de fato, o produto de mais de uma década de preparação assídua pelas fábricas de elite dos Estados Unidos dedicadas à mudança de regimes de governo. Junto com um grupo de ativistas estudantis de direita, Guaidó foi treinado para minar o governo de orientação socialista da Venezuela, para desestabilizar o país e, algum dia, para tomar o poder. Embora ele tenha sido uma figura menor na política venezuelana, ele passou anos demonstrando calmamente seu valor nos corredores do poder de Washington.

Twitts de Corbyn e Trump
Jeremy Corbyn, líder do partido trabalhista
inglês, lembra o histórico dos EUA de Trump
de apoio a golpes de estados na América Latina.

“Juan Guaidó é um personagem que foi criado para essa circunstância”, disse a Grayzone Marco Soco, um sociólogo argentino e principal cronista da política venezuelana. “É a lógica de um laboratório: Guaidó é como uma mistura de vários elementos que criam um personagem que, com toda a honestidade, provoca entre o riso e a preocupação”.

Diego Sequera, jornalista venezuelano e escritor da agência investigativa, Misión Verdad, concordou: “Guaidó é mais popular fora da Venezuela do que no interior, especialmente nos círculos de elite da Ivy League e Washington”, comentou Sequera ao Grayzone: “ele é um personagem bem conhecido lá, ele é previsivelmente de direita e ele é considerado fiel ao programa”.

Enquanto Guaidó é vendido hoje como o rosto da restauração democrática, ele passou sua carreira na facção mais violenta do partido de oposição mais radical na Venezuela, posicionando-se na vanguarda de uma campanha de desestabilização após a outra. Seu partido foi amplamente desacreditado dentro da Venezuela e é parcialmente responsável por fragmentar uma oposição muito debilitada.

“Esses líderes radicais não têm mais do que 20% nas pesquisas de opinião”, escreveu Luis Vicente León, o principal pesquisador da Venezuela. Segundo León, o partido de Guaidó continua isolado porque a maioria da população “não quer guerra”. “O que eles querem é uma solução”.

Mas esta é precisamente a razão pela qual Guaidó foi escolhido por Washington: não se espera que ele leve a Venezuela à democracia, mas colapse um país que tem sido, nas últimas duas décadas, um bastião de resistência à hegemonia dos EUA. Sua ascensão improvável marca a ápice de um projeto de duas décadas para destruir um forte experimento socialista.

Apontando para a “Troika da Tirania”

Desde a eleição de Hugo Chávez, em 1998, os Estados Unidos lutaram para restabelecer o controle sobre a Venezuela e suas vastas reservas de petróleo. Os programas socialistas de Chávez podem ter redistribuído a riqueza do país e ajudado a tirar milhões de pessoas da pobreza, mas também colocaram um alvo nas suas costas. Em 2002, a oposição de direita venezuelana o derrubou brevemente com o apoio e reconhecimento dos Estados Unidos antes que o Exército reconduzisse Chávez à sua presidência, após uma massiva mobilização popular. Ao longo das administrações dos presidentes dos EUA George W. Bush e Barack Obama, Chávez sobreviveu a inúmeras tentativas de assassinato antes de sucumbir ao câncer em 2013. Seu sucessor, Nicolas Maduro, sobreviveu a três atentados contra a sua vida.

A administração Trump imediatamente elevou a Venezuela ao topo da sua lista de metas de mudança de regime, chamando-a de líder de uma “troika da tirania”. No ano passado, a equipe de segurança nacional de Trump tentou recrutar membros das forças armadas para formar uma junta militar, mas esse esforço fracassou.

Segundo o governo venezuelano, os Estados Unidos também participaram de um complô com o codinome “Operation Constitution” (Operação Constituição) para capturar Maduro no palácio presidencial de Miraflores, e outra chamada “Operation Armageddon” (Operação Armagedon) para assassiná-lo na parada militar de Julho de 2017. Um pouco mais de um ano depois, líderes da oposição exilados tentaram, sem sucesso, matar Maduro com drones durante uma parada militar em Caracas.

Mais de uma década antes dessas intrigas, um grupo de estudantes da oposição de direita foi selecionado e cuidadosamente treinado por uma academia de elite, financiada pelos Estados Unidos, especializada em promover mudanças de regimes com o objetivo de derrubar o governo da Venezuela e restaurar a ordem neoliberal.

Treinamento pelo “Exportar uma Revolução”, grupo que espalhou as sementes para várias revoluções coloridas

Em 5 de outubro de 2005, com a popularidade de Chávez no auge e seu governo planejando ampliar os programas socialistas, cinco “líderes estudantis” venezuelanos chegaram a Belgrado, na Sérvia, para começar seu treinamento para uma insurreição.

Os estudantes chegaram da Venezuela por cortesia do Centro de Ação e Estratégias Não-Violentas Aplicadas (CANVAS, do inglês, Center for Applied Non-Violent Action and Strategies). Este grupo é financiado em grande parte pelo National Endowment for Democracy (NED), um apêndice da CIA que funciona como o braço principal do governo dos EUA para promover mudanças de governo; e por subsidiárias como International Republican Institute e o National Democratic Institute for International Affairs [instituições privadas, sem fins lucrativos, que financiam “ações a favor da democracia”]

De acordo com e-mails internos filtrados da Stratfor, uma empresa de inteligência conhecida como “a CIA na sombra”, “[CANVAS] também pode ter recebido financiamento e treinamento da CIA durante a luta contra Milosevic, durante 1999/2000”.

Esta semana foi detido o ex-militar Oswaldo García Palomo,
que confessou à Bloombergter participado em um atentado contra
Maduro e uma derrotada tentativa de golpe em 2018. (Foto: Bloomberg)

O CANVAS é um subproduto do Otpor, um grupo de oposição sérvio fundado por Srdja Popovic em 1998 na Universidade de Belgrado. Otpor, que significa “resistência” em sérvio, foi o grupo de estudantes que ganhou fama internacional – promovidos por Hollywood – ao realizar protestos que eventualmente derrubaram Slobodan Milosevic.

Essa pequena célula de especialistas em mudança de regime operou de acordo com as teorias do falecido Gene Sharp, o chamado “Clausewitz da luta não violenta”. Sharp havia trabalhado com o coronel Robert Helvey, um ex-analista da Agência de Inteligência de Defesa, para conceber um plano estratégico direcionado a converter protestos em uma forma de guerra híbrida, mirando os estados que resistiam à dominação unipolar de Washington.

O Otpor recebeu apoio do National Endowment for Democracy, da USAID e do Sharp’s Albert Einstein Institute. Sinisa Sikman, uma das principais capacitadoras do Otpor, disse uma vez que o grupo até recebia financiamento direto da CIA.

Conforme um e-mail vazado de um empregado da Stratfor, depois de tirar Milosevic do poder, “as crianças que administravam o OTPOR cresceram, compraram ternos e projetaram o CANVAS ... ou, em outras palavras, um grupo ‘exportar uma revolução’, que espalhou as sementes para várias revoluções coloridas. No entanto, ainda dependem do financiamento dos EUA e, basicamente, percorrem o mundo tentando derrubar ditadores e governos autocráticos (aqueles que os Estados Unidos não gostam)”.

A Stratfor revelou que a CANVAS “voltou sua atenção para a Venezuela” em 2005, após treinar movimentos de oposição que lideraram as operações de mudança de regime em favor da OTAN na Europa Oriental.

Ao monitorar o programa de treinamento da CANVAS, a Stratfor descreveu sua agenda insurrecional em linguagem surpreendentemente contundente: “O sucesso não é garantido e os movimentos estudantis são apenas o começo do que poderia ser um esforço de vários anos para desencadear uma revolução na Venezuela, mas os instrutores afiaram seus dentes no ‘açougueiro dos Bálcãs’. Eles têm habilidades insanas. Quando você vir estudantes em cinco universidades venezuelanas realizando demonstrações simultâneas, você saberá que o treinamento terminou e que o trabalho real já começou”.

O nascimento dos quadros da “geração 2007” para a mudança de regimes

O “trabalho real” começou dois anos depois, em 2007, quando Guaidó se formou na Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas. Ele mudou-se para Washington DC para inscrever-se no Programa de Governança e Gestão Política na Universidade George Washington, sob a tutela do economista venezuelano Luis Enrique Berrizbeitia, um dos principais economistas neoliberais da América Latina. Berrizbeitia é ex-diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e passou mais de uma década trabalhando no setor de energia venezuelano na época do antigo regime oligárquico que Chávez eliminou.

Naquele ano, Guaidó ajudou a liderar comícios da oposição depois que o governo venezuelano se recusou a renovar a licença da Radio Caracas Televisión (RCTV). Esta estação privada desempenhou um papel importante no golpe de 2002 contra Hugo Chávez. A RCTV ajudou a mobilizar manifestantes contra o governo, falsificou informações que culpavam os partidários do governo por atos de violência levados a cabo por membros da oposição e proibiu reportagens pró-governo durante o golpe. O papel da RCTV e outras estações de propriedade dos oligarcas na condução da tentativa fracassada de golpe foi descrito no aclamado documentário “A revolução não será televisionada” - (que pode ser visto aqui)

No mesmo ano, os estudantes assumiram os créditos pela obstrução do referendo constitucional proposto por Chávez sobre o “socialismo do século 21”, que prometia “estabelecer o marco legal para a reorganização política e social do país, outorgando poder direto às comunidades organizadas como um requisito prévio para o desenvolvimento de um novo sistema econômico”.

Dos protestos em torno da RCTV e do referendo, nasceu um grupo especializado de ativistas para a mudança de regimes, apoiado pelos Estados Unidos. Eles se nomearam “Geração 2007”.

Símbolo da ОТПОР!
Clic na imagem para saber mais sobre o treinamento dos estuantes (texto em espanhol)

Os especialistas da Stratfor e da CANVAS nessa célula identificaram um aliado de Guaidó - um organizador de manifestações chamado Yon Goicoechea, como um “fator-chave” para derrotar o referendo constitucional. No ano seguinte, Goicochea foi recompensado por seus esforços com o Prêmio Milton Friedman de Promoção da Liberdade, do Instituto Cato, junto com um prêmio de US$ 500.000, que rapidamente investiu na promoção de sua própria rede política “Primero Justicia”.

Friedman, é claro, era o padrinho dos notórios neoliberais conhecidos como Chicago Boys, que foram importados para o Chile pelo líder da junta ditatorial, Augusto Pinochet, para implementar políticas radicais da “doutrina de choque” - tipo austeridade fiscal. E o Cato Institute é o grupo de especialistas baseados em Washington DC, um think tank* fundado pelos irmãos Koch, dois dos principais financiadores do Partido Republicano, que se tornaram agressivos defensores da direita em toda a América Latina.

Wikileaks publicou um e-mail de 2007 do embaixador dos EUA na Venezuela, William Brownfield, enviado ao Departamento de Estado, ao Conselho Nacional de Segurança e ao Departamento de Defesa do Comando Sul, elogiando “Geração 2007” por ter “forçado o presidente venezuelano, acostumado a estabelecer a agenda política, a (mais) reagir”. Entre os “líderes emergentes” que Brownfield identificou estavam Freddy Guevara e Yon Goicoechea, este último foi aplaudido como “um dos mais articulados defensores das liberdades civis entre os estudantes”.

Com uma grande quantidade de dinheiro dos oligarcas libertários e das equipes de poder brando do governo dos Estados Unidos, os radicais venezuelanos levaram as táticas do Otpor às ruas, junto com uma versão do logotipo do grupo, como pode ser visto ao lado.

“Galvanizando a agitação pública … para aproveitar a situação e voltá-la contra Chávez”

Em 2009, os jovens ativistas da Geração 2007 fizeram sua mais provocativa demonstração até aquele momento, baixando as calças em vias públicas e imitando as ultrajantes táticas de guerrilha ensinadas por Gene Sharp nos seus manuais de mudança de regime. Os manifestantes se mobilizaram contra a prisão de um aliado de outro grupo juvenil chamado JAVU. Este grupo de extrema-direita “reuniu fundos de uma variedade de fontes do governo dos EUA, o que permitiu ganhar notoriedade rapidamente como a linha-dura dos movimentos de oposição”, segundo o livro do acadêmico George Ciccariello-Maher, “Construindo a Comuna”.

Estudantes da "Geração 2007" revelam o que pretendem para a Venezuela.

Enquanto o vídeo do protesto não está disponível, muitos venezuelanos identificaram Guaidó como um dos seus principais participantes. Embora a alegação não seja confirmada, é certamente plausível; os manifestantes de bundas nuas eram membros do núcleo interno da Generation 2007 a que Guaidó também pertencia e estavam vestidos com camisetas com sua marca registrada: Resistencia! Venezuela, como visto ao lado.

Naquele ano, Guaidó se expôs ao público de outra maneira, fundando um partido político para capturar a energia contra Chávez, que sua geração 2007 havia cultivado. Chamado de Voluntad Popular (Vontade Popular), foi liderada por Leopoldo López, um incendiário de direita educado em Princeton, fortemente envolvido em programas do National Endowment for Democracy e eleito prefeito de um distrito de Caracas, que era um dos mais ricos do país. Lopez era um retrato da aristocracia venezuelana, descendente direto do primeiro presidente de seu país. Ele também foi primo em primeiro grau de Thor Halvorssen, que criou a Fundação de Direitos Humanos, com sede nos EUA, que funciona, de fato, como uma loja de publicidade para ativistas antigoverno apoiados pelos EUA em países alvos de Washington para a mudança de regime.

Embora os interesses de Lopez se alinhassem perfeitamente com os de Washington, os comunicados diplomáticos dos EUA, vazados pelo Wikileaks, destacavam as tendências fanáticas que acabariam por levar o Voluntad Popular à marginalização. Uma dessas mensagens identificou Lopez como “uma figura divisora dentro da oposição… frequentemente descrita como arrogante, vingativa e com fome de poder”. Outros destacaram sua obsessão por confrontos de rua e sua “abordagem inflexível” como fonte de tensão com outros líderes da oposição que priorizaram unidade e participação nas instituições democráticas do país.

Em 2010, o Voluntad Popular e seus apoiadores estrangeiros se mobilizaram para explorar a pior seca que atingiu a Venezuela em décadas. O país viveu interrupções constantes no fornecimento de energia elétrica causadas pela escassez de água, necessária ao abastecimento usinas hidrelétricas. A global recessão econômica e o declínio dos preços do petróleo agravaram a crise, provocando descontentamento público.

A Stratfor e a CANVAS - conselheiras-chave de Guaidó e seus quadros contra o governo – elaboraram um plano chocantemente cínico para cravar um punhal no coração da revolução bolivariana. O esquema dependia de um colapso de 70% do sistema elétrico do país em abril de 2010.

“Este poderia ser um divisor de águas, pois há pouco que Chávez poderia fazer para proteger os pobres do fracasso desse sistema”, declarou o memorando interno da Stratfor. “Isso provavelmente teria o impacto de galvanizar as manifestações públicas de uma forma que nenhum grupo da oposição esperaria gerar. Naquele momento, um grupo de oposição estaria em melhores condições para aproveitar a situação e voltá-la contra Chávez e para suas necessidades”.

A essa altura, a oposição venezuelana estava recebendo surpreendentes US$ 40-50 milhões por ano de organizações governamentais dos EUA, como a USAID e o National Endowment for Democracy, conforme relatório do think tank espanhol, o Instituto FRIDE. Também tinha uma enorme riqueza para extrair de suas próprias contas, que estavam, principalmente, fora do país.

Embora o cenário imaginado pela Statfor não tenha se concretizado, os ativistas do partido Voluntad Popular e seus aliados deixaram de lado qualquer pretensão de não-violência e aderiram a um plano radical para desestabilizar o país.

Rumo à desestabilização violenta

Em novembro de 2010, de acordo com e-mails obtidos pelos serviços de segurança venezuelanos e apresentados pelo ex-ministro da Justiça Miguel Rodríguez Torres, Guaidó, Goicoechea e vários outros ativistas estudantis participaram de um treinamento secreto de cinco dias em um hotel chamado “Fiesta Mexicana”, no México. As sessões foram conduzidas pelo Otpor, os especialistas em mudança de regime, apoiados pelo governo dos EUA, com sede em Belgrado. A reunião teria recebido a bênção de Otto Reich – fanático cubano e exilado anti-castrista, que trabalhava no Departamento de Estado de George W. Bush – e do ex-presidente colombiano de direita Álvaro Uribe.

Dentro dos encontros, segundo os e-mails, Guaidó e seus colegas ativistas traçaram um plano para derrubar o presidente Hugo Chávez, gerando o caos por meio de prolongados convulsões de violência nas ruas.

Três figuras de proa do setor de petróleo - Gustavo Torrar, Eligio Cedeño e Pedro Burelli - supostamente cobriram os custos de US$ 52.000 para a realização da reunião. Torrar descreve a si mesmo como um “ativista dos direitos humanos” e “intelectual”, cujo irmão mais novo Reynaldo Tovar Arroyo é o representante na Venezuela da empresa de óleo e gás privada mexicana, Petroquímica del Golfo, que detém um contrato com o Estado venezuelano.

Cedeño, por sua vez, é um empresário fugitivo venezuelano que pediu asilo nos Estados Unidos, e Pedro Burelli um ex-executivo do JP Morgan e ex-diretor da petrolífera venezuelana Petróleo da Venezuela (PDVSA). Burelli deixou a PDVSA em 1998, quando Hugo Chávez assumiu o poder e é integrante do comitê consultivo do Programa de Liderança na América Latina da Universidade de Georgetown.

Twitter de Pedro BurelliBurelli insiste que os e-mails detalhando sua participação foram fabricados e até contratou um investigador particular para provar isso. O investigador declarou que os registros do Google mostraram que os e-mails alegados como sendo seus nunca foram transmitidos.

No entanto, hoje Burelli não faz segredo de seu desejo de ver o atual presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deposto – e até mesmo arrastado pelas ruas e sodomizado com uma baioneta, como milicianos apoiados pela OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) fizeram com o líder líbio Muamar Kadafi (conforme o seu twitter reproduzido ao lado).

Atualização: Burelli contatou a Grayzone após a publicação deste artigo para esclarecer sua participação no enredo “Fiesta Mexicana”.

Burelli chamou a reunião de “uma atividade legítima que ocorreu em um hotel por um nome diferente”, no México.

Perguntado se a OTPOR coordenou a reunião, ele apenas afirmou que “gosta” do trabalho da OTPOR / CANVAS e, embora não seja um financiador dela, “recomendou ativistas de diferentes países para rastreá-los e participar das atividades que realizam em vários países”.

Burelli acrescentou: “O Instituto Einstein treinou milhares de pessoas abertamente na Venezuela. A filosofia de Gene Sharpe foi amplamente estudada e adotada. E isso provavelmente impediu que a luta se transformasse em uma guerra civil”.

A suposta trama da Fiesta Mexicana fluiu para outro plano de desestabilização revelado em uma série de documentos produzidos pelo governo venezuelano. Em maio de 2014, Caracas divulgou documentos detalhando uma trama para o assassinato do presidente Nicolás Maduro. Os vazamentos identificaram a linha-dura anti-chavista, Maria Corina Machado - hoje o principal trunfo do senador Marco Rubio - como líder do esquema. Fundadora do grupo financiado pelo Fundo Nacional para a Democracia, Sumate, Machado tem funcionado como um elo internacional para a oposição, visitando o presidente George W. Bush em 2005.

“Acho que é hora de reunir esforços; fazer os telefonemas necessários, e obter financiamento para aniquilar Maduro e o resto vai desmoronar”, escreveu Machado em um e-mail ao ex-diplomata venezuelano Diego Arria, em 2014.

Em outro e-mail, Machado afirmou que a trama violenta teve a bênção do embaixador dos EUA na Colômbia, Kevin Whitaker. “Eu já me decidi e esta luta continuará até que este regime seja derrubado e nós entremos com nossos amigos no mundo. Se fui a San Cristobal e me expus na presença da OEA [organização dos Estados Americanos], não temo nada. Kevin Whitaker já reconfirmou seu apoio e apontou os novos passos. Temos um talão de cheques mais forte que o do regime para quebrar o anel de segurança internacional”.

Guaidó vai para as barricadas

Naquele mês de fevereiro, manifestações de estudantes que atuavam como tropas de choque para a oligarquia exilada ergueram barricadas violentas em todo o país, transformando bairros controlados pela oposição em fortalezas violentas conhecidas como guarimbas. Enquanto a mídia internacional retratou a revolta como um protesto espontâneo contra o governo de mão de ferro de Maduro, havia ampla evidência de que o Voluntad Popular estava orquestrando o show.

“Nenhum dos manifestantes nas universidades usava camisetas de sua universidade, todos usavam camisetas do Voluntad Popular ou do Justice First”, disse um participante do guarimba na época. “Eles podem ter sido grupos de estudantes, mas os conselhos estudantis são afiliados aos partidos políticos da oposição e são responsáveis por eles”.

Perguntado quem eram os líderes, o participante da guarimba disse: “Bem, se eu for totalmente honesto, esses caras são legisladores agora”.

Cerca de 43 foram mortos durante as guarimbas de 2014. Três anos depois, eles irromperam novamente, causando a destruição em massa da infraestrutura pública, o assassinato de apoiadores do governo e a morte de 126 pessoas, muitas das quais eram chavistas. Em vários casos, os partidários do governo foram queimados vivos por gangues armadas.

Guaidó esteve diretamente envolvido nas guarimbas de 2014. Na verdade, ele twittou um vídeo em que estava de capacete e máscara de gás, cercado por elementos mascarados e armados que haviam fechado uma rodovia e que envolvia um confronto violento com a polícia. Aludindo à sua participação na Generation 2007, ele proclamou: “Eu me lembro em 2007, proclamamos: ‘Estudantes!’ Agora, nós gritamos: ‘Resistência! Resistência!’”

Guaidó apagou o tweet, demonstrando aparente preocupação por sua imagem como defensor da democracia.

Em 12 de fevereiro de 2014, durante o auge das guarimbas daquele ano, Guaidó se juntou a Lopez no palco em um comício do Voluntad Popular e Justice First. Durante uma longa diatribe contra o governo, Lopez instou a multidão a marchar até o escritório da procuradora-geral Luisa Ortega Diaz. Logo depois, o escritório de Diaz foi atacado por gangues armadas que tentaram incendiá-lo. Ela denunciou o que chamou de “violência planejada e premeditada”.

Em uma aparição televisionada em 2016, Guaidó descartou, como um “mito”, as mortes resultantes de guayas – uma tática de guarimba envolvendo esticar fio de aço em uma estrada para ferir ou matar motociclistas. Seus comentários esterilizaram uma tática mortal que matou civis desarmados como Santiago Pedroza e decapitou um homem chamado Elvis Durán, entre muitos outros.

Esse insensível desrespeito à vida humana definiria seu partido Voluntad Popular aos olhos de grande parte do público, incluindo muitos oponentes de Maduro.

Decifrando a vontade popular

À medida que a violência e a polarização política aumentaram em todo o país, o governo começou a agir contra os líderes do Voluntad Popular que ajudaram a estimulá-las.

Freddy Guevara, vice-presidente da Assembleia Nacional e segundo no comando do Voluntad Popular, foi o principal líder dos distúrbios de rua de 2017. Diante de um julgamento por seu papel na violência, Guevara se refugiou na embaixada chilena, onde permanece.

Lester Toledo, legislador do Voluntad Popular do estado de Zulia, foi procurado pelo governo venezuelano em setembro de 2016 sob a acusação de financiar o terrorismo e planejar assassinatos. Os planos seriam feitos com o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe. Toledo escapou da Venezuela e fez várias viagens de palestras com a Human Rights Watch, a Casa da Liberdade, apoiada pelo governo dos EUA, o Congresso Espanhol e o Parlamento Europeu.

Carlos Graffe, outro membro da Geração 2007 treinado no Otpor que liderou o Voluntad Popular, foi preso em julho de 2017. Segundo a polícia, ele estava de posse de uma bolsa cheia de pregos, explosivos C4 e um detonador. Ele foi liberado em 27 de dezembro de 2017.

Leopoldo Lopez, líder de longa data do Voluntad Popular, está hoje sob prisão domiciliar, acusado de um papel fundamental na morte de 13 pessoas durante as guarimbas em 2014. A Anistia Internacional classificou Lopez como “prisioneiro de consciência” e indicou sua transferência da prisão para casa. como “não suficiente”. Enquanto isso, familiares de vítimas de guarimba apresentaram uma petição por mais acusações contra Lopez.

Yon Goicoechea, o garoto-propaganda dos irmãos Koch, foi preso em 2016 por forças de segurança que alegaram ter encontrado um quilo de explosivos em seu veículo. Em um artigo publicado no New York Times, Goicoechea protestou contra as acusações, alegando terem sido “inventadas” e afirmou que ele havia sido preso simplesmente por seu “sonho de uma sociedade democrática, livre do comunismo”. Ele foi libertado em novembro de 2017.

David Smolansky, também membro da Geração 2007, treinada pelo Otpor, tornou-se o prefeito mais jovem da Venezuela quando foi eleito em 2013, no rico subúrbio de El Hatillo. Mas ele foi destituído de sua posição e condenado a 15 meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal depois que ele foi julgado culpado de incitar as violentas guarimbas.

Diante da prisão iminente, Smolansky raspou a barba, vestiu óculos escuros e entrou no Brasil disfarçado de padre, com uma bíblia na mão e um rosário no pescoço. Ele agora vive em Washington, DC, onde foi escolhido pessoalmente pelo secretário da Organização dos Estados Americanos, Luis Almagro, para liderar o grupo de trabalho sobre a crise migratória e de refugiados na Venezuela.

Em 26 de julho, Smolansky realizou o que chamou de “reunião cordial” com Elliot Abrams, criminoso Irã-contra condenado, nomeado por Trump como enviado especial dos EUA para a Venezuela. Abrams é notório por supervisionar a política secreta dos EUA de armar esquadrões da morte de direita durante os anos 1980 na Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Seu papel principal no golpe venezuelano alimentou temores de que outra guerra por procuração encharcada de sangue possa estar a caminho.

Quatro dias antes, Machado resmungou outra ameaça violenta contra Maduro, declarando que, se ele “quer salvar sua vida, ele deve entender que seu tempo acabou”.

Um peão no seu jogo

O colapso do Voluntad Popular, sob o peso da violenta campanha de desestabilização, alienou grandes setores do público e feriu grande parte de sua liderança que acabou no exílio ou sob custódia. Guaidó permaneceu sendo uma figura relativamente pequena, tendo passado a maior parte de sua carreira de nove anos na Assembleia Nacional como suplente. Vindo de um dos estados menos populosos da Venezuela, Guaidó ficou em segundo lugar durante as eleições parlamentares de 2015, ganhando apenas 26% dos votos para assegurar seu lugar na Assembleia Nacional. De fato, seu traseiro pode ter sido mais conhecido do que seu rosto.

Guaidó é conhecido como o presidente da Assembleia Nacional, dominada pela oposição, mas nunca foi eleito para o cargo. Os quatro partidos de oposição que compunham a Mesa da Unidade Democrática da Assembleia decidiram estabelecer uma presidência rotativa. A vez do Voluntad Popular estava a caminho, mas seu fundador, Lopez, estava em prisão domiciliar. Enquanto isso, seu segundo em comando, Guevara, refugiara-se na embaixada chilena. Uma figura chamada Juan Andrés Mejía teria sido o próximo na fila mas, por razões que só agora são claras, Juan Guaido foi selecionado.

“Há um raciocínio de classe que explica a ascensão de Guaidó”, observou Sequera, analista venezuelano. “Mejía é de alta classe, estudou em uma das universidades privadas mais caras da Venezuela e não podia ser facilmente divulgado ao público da maneira que Guaidó poderia. Por um lado, Guaidó tem características mestiças comuns, como a maioria dos venezuelanos, e parece mais um homem do povo. Além disso, ele não havia sido superexposta na mídia, então ele poderia ser construído em praticamente qualquer coisa”.

Em dezembro de 2018, Guaidó passou furtivamente pela fronteira e foi a Washington, Colômbia e Brasil para coordenar o plano de realizar manifestações em massa durante a posse do presidente Maduro. Na noite anterior à cerimônia de posse de Maduro, tanto o vice-presidente Mike Pence quanto a chanceler do Canadá, Chrystia Freeland, ligaram para Guaidó para afirmar seu apoio.

Grey Zone e Missión Verdad
Este texto foi publicado nos sítios GreyZone (EUA) e MissiónVerdad (Venezuela)

Uma semana depois, o senador Marco Rubio, o senador Rick Scott e o deputado Mario Diaz-Balart - todos legisladores eleitos na Flórida, base do lobby da direita cubana no exílio – se juntaram ao presidente Trump e ao vice-presidente Pence na Casa Branca. A pedido deles, Trump concordou que se Guaidó se declarasse presidente, ele o apoiaria.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, se encontrou pessoalmente com Guaidó em 10 de janeiro, segundo o Wall Street Journal. No entanto, Pompeo não conseguiu pronunciar o nome de Guaidó quando o mencionou em uma coletiva de imprensa em 25 de janeiro, referindo-se a ele como “Juan Guido”.

Em 11 de janeiro, a página da Wikipedia de Guaidó havia sido editada 37 vezes, destacando a luta, para moldar a imagem de uma figura anteriormente anônima que agora era um quadro para as ambições de mudança do regime de Washington. No final, a supervisão editorial de sua página foi entregue ao conselho de elite da Wikipédia, de “bibliotecários”, que o declarou o presidente “contestado” da Venezuela.

Guaidó poderia ter sido uma figura obscura, mas sua combinação de radicalismo e oportunismo satisfez as necessidades de Washington. “Aquela peça interna estava faltando”, disse disse a administração Trump sobre Guaidó. “Ele era a peça que precisávamos para que nossa estratégia fosse coerente e completa”.

“Pela primeira vez”, Brownfield, o ex-embaixador americano na Venezuela, disse ao New York Times, “você tem um líder da oposição que está claramente sinalizando às forças armadas e à polícia que ele quer mantê-las ao lado dos anjos e com os mocinhos”.

Mas o partido da Voluntad Popular de Guaidó formou as tropas de choque das guarimbas que causaram a morte de policiais e cidadãos comuns. Ele até se vangloriara de sua própria participação em tumultos de rua. E agora, para conquistar os corações e as mentes dos militares e da polícia, Guaidó teve que apagar essa história encharcada de sangue.

Em 21 de janeiro, um dia antes do golpe começar a sério, a esposa de Guaidó fez um discurso em vídeo pedindo aos militares que se levantassem contra Maduro. Sua performance foi sem entusiasmo e inspiração, ressaltando os limites políticos do próprio marido.

Enquanto Guaidó aguarda assistência direta, ele continua sendo o que sempre foi – um projeto de estimação de forças externas cínicas. “Não importa se ele cai e queima depois de todas essas desventuras”, disse Sequera sobre a figura do golpe. “Para os americanos, ele é dispensável”.

Texto publicado originalmente, em inglês, no sítio GrayZone, de autoria de Dan Cohen* e Max Blumenthal8*. Traduzido para o espanhol, foi publicado no sítio Missión Verdad.

* Dan Cohen é jornalista e cineasta. Ele produziu relatórios em vídeo amplamente distribuídos e envie mensagens de todo Israel-Palestina. Dan é um correspondente na RT America e tweets no @DanCohen3000.

** Max Blumenthal é um jornalista premiado e autor de vários livros, incluindo o best-seller Republican Gomorra, Goliath, The Fifty One Day War e The Management of Savagery. Ele produziu artigos impressos para uma série de publicações, relatórios em vídeo e vários documentários, incluindo Killing Gaza. Blumenthal fundou a The Grayzone em 2015 para lançar uma luz jornalística sobre o estado de guerra perpétua da América e suas perigosas repercussões domésticas.

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De olho na Venezuela e no Pré-sal, Almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul, visita o Brasil, entre os dias 10 e 13 de fevereiro deste 2019, para consolidar alianças estratégicas de interesse dos EUA.

As declarações do almirante, na última quinta-feira, 7 de fevereiro, diante do Comitê de Serviços Armados do Senado dos EUA não deixam dúvidas sobre sua ação à frente do U.S. Southern Command (SOUTHCOM). Os EUA utilizarão de todos os recursos disponíveis para fazer valer seus interesses que, supostamente, seriam os mesmos de todos os países das Américas, “sua vizinhança”.

O almirante segue a “Estratégia Nacional de Segurança”, de dezembro de 2017, elaborada no governo de Donald Trump:

Almirante Craig Faller
Almirante Craig Faller. Foto: SOUTHCOM

“Durante meu primeiro ano no cargo, você testemunhou minha política externa América Primeiro (America First) em ação. Estamos priorizando os interesses de nossos cidadãos e protegendo nossos direitos soberanos como nação. A América está liderando novamente no cenário mundial. Nós não estamos nos escondendo dos desafios que enfrentamos. Estamos confrontando-os de cebeça erguida e buscando oportunidades para promover a segurança e a prosperidade de todos os americanos”.

Partindo de uma visão maniqueísta, o almirante, em sua Declaração de Postura (Posture Statement) ao Senado, alerta contra os “seis atores estatais”, os “atores malignos”. Na mesma linha já adotada por John Bolton, assessor de segurança-nacional e membro do círculo de conselheiros próximos de Donald Trump, que identificou Cuba, Venezuela e Nicarágua como a “troika da tirania”.

Na era Bush também houve o “Eixo do Mal”. E nesse conceito de mal cabe qualquer país que pretender desafiar o menor dos fundamentos da Ordem Mundial Americana, um credo que divide o mundo entre amigos e inimigos.

Algo como: os que estão de acordo com nossa dominação e os que estão contra. Os primeiros, são chamados de parceiros, vizinhos. O almirante usa a palavra “neighborhood”, vizinhança, que também pode ser traduzida por bairro. O que reciclaria o antigo conceito de “quintal” dos EUA atribuído à América Latina.

Essa ação ofensiva colocou no eixo das disputas internacionais a América Latina, com real perigo de uma intervenção militar na Venezuela sob a capa de uma “ajuda humanitária”. Em especial, diz o comandante aos senadores, “estamos monitorando os últimos acontecimentos na Venezuela e esperamos receber esse país de volta à comunidade de democracias do hemisfério”. Isso dito por alguém que tem sob seu comando uma poderosa força militar não é somente um desejo vazio.

“Dentro da região, temos que estar no campo para competir. A mesma presença que fortalece nossas parcerias envia um poderoso sinal à Rússia, China, Irã, Cuba, Venezuela e Nicarágua (os seis atores estatais negativos) que os Estados Unidos estão comprometidos com a região e com a segurança de nossa vizinhança”.

A forma de “competir” é criar estruturas de redes de suporte contra as redes de ameaças. “O sucesso e a segurança das gerações futuras dependem de como efetivamente construímos confiança com aliados e parceiros no Hemisfério hoje”. E continua: “em última análise, queremos que os inimigos nos temam, que amigos façam parceria conosco e que o hemisfério ocidental brilhe como um farol de paz, prosperidade e potencial”.

No mesmo dia que Craig Faller falava aos senadores, terminava em San Antonio, Texas, a Conferência dos Exércitos Americanos (CAA), que é uma reunião “especializada sobre apoio militar a autoridades civis para combater redes de ameaças”.

 Chefes do Comando Sul (EUA) no Brasil
Lilian Ayalde e Craig Faller reúnem-se com autoridades brasileiras. Foto: SOUTHCOM

“O combate às redes de ameaças tem que ser um esforço de equipe”, disse o presidente da conferência, major-general Mark Stammer, comandante sul do Exército dos EUA, depois de receber delegados de 18 países diferentes em San Antonio”.

“Para derrotar qualquer rede, é preciso muitos parceiros. Uma rede de redes é melhor. Precisamos incluir todos os nossos parceiros interagências quando estivermos planejando e executando operações de rede contra ameaças”, esclareceu Robert Pike, Oficial de Ligação do Exército dos EUA para a CAA.

Neocolonialismo

Enquanto isso, o almirante repercutia o mesmo conceito no Senado: “o fortalecimento de nossas parcerias é nossa melhor proposta para enfrentar ameaças regionais e globais. Trabalhamos com parceiros através e por meio de parceiros para aumentar a segurança dos Estados Unidos e de nossos parceiros e ajudar a aumentar as relações bilaterais de segurança em iniciativas de segurança regionais e globais. Nossa abordagem em rede para combater as ameaças reconhece que nada acontece sem parcerias robustas e duradouras em toda a agência, região e sociedade civil dos EUA”.

Assim, o trabalho interagências aparece como o caminho por meio do Departamento de Estado, Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), Departamento de Segurança Interna (DHS) e Departamento de Justiça (DOJ) e outros, com recursos, financeiros e humanos, suficientes para envolver instituições e pessoas na rede das redes da “Ordem Americana”.

Esse conceito materializou-se recentemente na rede de apoio ao presidente autoproclamado da Venezuela, Juan Guaidó - uma peça formada e treinada nesse emaranhado de interesses financiados pelos EUA. Rede que se espraia pelo mundo todo.

Para Faller, os “malignos” “China e a Rússia, desafiam o poder, a influência e os interesses norte-americanos, para destruir a segurança e a prosperidade Americanas”. E “querem moldar um mundo antitético aos valores e interesses dos EUA”. Para isso, “começaram a reafirmar sua influência regional e global. Hoje, eles estão desenvolvendo capacidades militares destinadas a negar o acesso da América em tempos de crise e a operar livremente em zonas comerciais críticas em tempos de paz. Em resumo, eles estão contestando nossas vantagens geopolíticas e tentando mudar a ordem internacional em seu favor”. E ainda “direcionam seus investimentos no mundo em desenvolvimento para expandir a influência e obter vantagens competitivas contra os Estados Unidos”.

O cenário é de confronto e conflito aberto ou não entre EUA e as outras potências e paises, em particular, a China. A Venezuela é o alvo mais próximo e visível.

O sítio venezuelano Missión Verdad, em matéria intitulada “A Cruzada religiosa do Comando Sul contra a Venezuela”, ressalta que, apesar de uma maior presença da China e da Rússia no continente, “em poucos anos, os poderes estatais na Argentina, Brasil e Equador mudaram a direção do integracionismo latino-caribenho para a integração pan-americana neocolonial. A balança começou a inclinar-se regionalmente para a dominação dos EUA” em detrimento da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), da Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), do Petrocaribe (aliança na área do petróleo entre alguns países do Caribe com a Venezuela) e do Mercosul.

O Brasil, em particular após Jair Bolsonaro ser eleito presidente, apresenta-se como um “parceiro” especial para os Estados Unidos. "Para a paz e a estabilidade da região, é crucial que os Estados Unidos aproveitem essa oportunidade histórica de aproximar as duas nações mais populosas do Hemisfério Ocidental", disse à CNN o senador Marco Rubio, presidente da Subcomissão de Relações Exteriores do Senado no Hemisfério Ocidental e membro do Comitê de Inteligência do Senado e do Comitê de Apropriações. Rubio é um dos principais articuladores da agressão à Venezuela e teve importante papel na decisão de Donald Trump em apoiar a autoproclamação de Juan Guaidó.

Rubio, que foi derrotado por Donald Trump como aspirante à presidência pelo partido Republicano e se elegeu senador pela Flórida, pode ser qualificado como da extrema direita cubano-americana. Na campanha para o Senado, apresentava-se como filho de “exilados cubanos que haviam fugido da ditadura de Castro”. O jornal The Washington Post, entretanto, disse que Rubio "embeleza os fatos", pois "os documentos mostram que os pais de Rubio vieram para os Estados Unidos e foram admitidos para residência permanente mais de dois anos e meio antes das forças de Castro derrubarem o governo cubano e tomarem o poder no dia de ano novo de 1959".

Na entrevista à CNN Rubio continua a "embelezar os fatos" e reverbera o mesmo discurso do almirante ao Senado. Afirma que, particularmente após os "governos anti-americanos" de Lula e Dilma, “um Brasil forte, vibrante e democrático, mais estreitamente alinhado com os Estados Unidos como parceiro estratégico, pode ser um multiplicador de forças no enfrentamento da crise atual na Venezuela e no combate às intenções malignas de regimes autoritários, como China, Rússia e Irã, que pretendem expandir sua presença e atividades na América Latina”.

Essa importância do Brasil como parceiro materializa-se na proposta apresentada por Faller senado: "ainda neste ano, o Brasil vai indicar um general para servir como Vice-comandante de Interoperabilidade do Comando Sul, o primeiro brasileiro a desempenhar este papel”.

É enxergando o mundo a partir dos interesses geopolíticos dos EUA, e pretendendo que estes sejam os mesmo dos demais países da América, que o almirante Craig Faller visita o Brasil. Faller tem sob seu comando um conjunto de forças que integra o exército, a força aérea, a marinha e a guarda costeira dos Estados Unidos. Destaque para a 4ª Frota, sediada na Estação Naval de Mayport, em Jacksonville, Flórida, que reúne navios, aviões e submarinos da Marinha dos EUA operando no Mar do Caribe, e os Oceanos Atlântico e Pacífico ao redor da América do Sul e Central.

A retomada das operações da Quarta Frota, em 1º de julho de 2008, 58 anos depois de ser desativada, “coincidiu” com a descoberta do pré-sal (as maiores reservas de petróleo descobertas recentemente), anunciada em novembro do mesmo ano. No dia 18 de setembro de 2008, uma quinta-feira, o presidente do Brasil, Luíz Inácio Lula da Silva, durante a cerimônia de batismo da plataforma P56, da Petrobras, no Rio Grande do Sul, destacou que “a Marinha [brasileira] joga um papel importante para proteger o nosso pré-sal, porque os homens já estão aí com a Quarta Frota quase em cima do pré-sal”.

Para Lula, “a nossa Marinha tem que ser a guardiã das nossas plataformas em alto-mar para fiscalizar esse patrimônio, porque daqui a pouco chega um espertinho aí e fala: isso é meu, está no fundo do mar mesmo, ninguém sabe, isso é meu”. Na época, o Brasil apostava na construção de um submarino nuclear para reforçar o controle nacional sobre o pré-sal – o projeto foi inviabilizado pela ação política do atual ministro da justiça, Sérgio Moro, à frente da Operação Lava Jato - que tem todas as características das ações de uma das redes citadas pelo almirante.

Rede de Intrigas

Em evento realizado em julho de 2017, na presença do então Procurador-Geral da República do Brasil, Rodrigo Janot, o vice-procurador geral adjunto em exercício do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ), Divisão Criminal, Kenneth Blanco, ressaltou a colaboração “informal” entre os dois países.

No vídeo do evento, Kenneth Blanco explica como e por que a Divisão Criminal atua “perto e junto com parceiros estrangeiros, como o Brasil”. Blanco apresenta uma versão bastante curiosa de uma das redes de parceiros ressaltadas pelos estadunidenses.

A justificativa para a parceria é a integração das economias e o rompimento das fronteiras pelas ações criminosas.

Para Blanco é “difícil imaginar uma cooperação melhor na história recente do que a que temos entre o Departamento de Justiça e o Brasil” e a Lava Jato.

Blanco refere-se explicitamente ao caso da empresa Odebrecht, que atingiu em cheio o coração da empresa brasileira de petróleo, Petrobras, e foi um dos fatores fundamentais para a queda de popularidade da então presidente Dilma Roussef, levando à sua destituição e à prisão política do ex-presidente Lula. A empresa Odebrecht era também a principal responsável pela construção do submarino nuclear brasileiro. Com projeção internacional relevante a partir de apoio do governo de Lula, a empresa também derrotava empresas estadunidentes em concorrências pelo mundo.

Segundo Blanco, o Departamento de Justiça “não somente ajudou na coleta de provas, na construção dos casos, mas fez questão de creditar as multas e punições pagas a cada país”.

"Devido à proximidade do Departamento de Estado e os procuradores brasileiros", ressaltou, os contatos puderam ser informais, à margem dos tratados e leis. Logo após os 8 minutos do vídeo, Blanco apresenta claramente como funciona a rede de colaboradores dos EUA. “No começo de uma investigação, um procurador ou um agente de uma unidade financeira de um país, pode ligar para seu parceiro estrangeiro e pedir informação financeira como, por exemplo, identificação de contas bancárias. Uma vez que a investigação tenha chegado ao ponto em que os procuradores estão prontos para levar o caso ao tribunal, as provas podem ser requeridas através do canal de assistência jurídica mútua para que possam ser aceitas como provas durante o julgamento”. A partir dos 9 minutos e 47 segundo Blanco cita a prisão de Lula como exemplo de sucesso da Lava Jato, o que levou a defesa do ex-presidente a arrolar o vídeo como prova, pois  “toda solicitação de assistência em matéria penal dirigida aos Estados Unidos deve ser feita por meio da Autoridade Central, que no Brasil é o Ministério da Justiça”, conforme o sítio GGN.

Alguns meses antes de Lula citar a Quarta Frota, no dia 5 de julho de 2008, na comemoração da independência da Venezuela, o presidente Hugo Chávez já havia reagido à reativação da força de intervenção. Quase prevendo o futuro, Chávez afirmou: “No le tenemos miedo” (“Não temos medo deles”) e pediu “aos militares da América Latina e Caribe” para se “colocarem ao lado do povo”. Para ele, “os soldados, devemos estar sempre ao lado do povo e contra o imperialismo e a oligarquia”.

Os EUA dividem o mundo em seis grandes regiões, correspondentes às suas seis frotas (II, III, IV, V, VI e VII) distribuídas no Atlântico Ocidental, o Pacífico Oriental, o Oriente Médio, o Mediterrâneo e Atlântico Oriental, e o Pacífico Ocidental, além área de atuação da IV Frota.

Os chefes das seis frotas não são meros comandantes militares. Exercem um papel político importante. “Eles estabelecem ligações com militares dos países de sua área de atuação e, muitas vezes, são encarregados de fazer os primeiros contatos políticos com governos considerados problemáticos pelos Estados Unidos. Nos últimos anos, esse aspecto de sua função aumentou muito, em virtude dos vastos recursos financeiros de que dispõem. Uma discussão mais detalhada do papel desses comandantes é apresentada por Dana Priest, The Mission, Nova York, Norton, 2003”, escreveu Silvio Caccia Bava no texto “O império contra-ataca”, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil em julho de 2008.

Embaixadora Lilian Ayalde
Embaixadora Lilian Ayalde

O Comando Sul, no entanto, tem um suporte extra. Na equipe do almirante Faller, inclusive presente nesta visita ao Brasil, está a ex-embaixadora dos EUA no Brasil, Liliana Ayalde, que, em janeiro de 2017, já havia assumido as funções de Vice-Civil do Comandante e Consultora de Política Externa do Comando Sul dos EUA. Na função, “ela é responsável por supervisionar o desenvolvimento e aperfeiçoamento da estratégia regional e os planos de cooperação de segurança do Comando, bem como as iniciativas de comunicação estratégica, assuntos públicos e direitos humanos do Comando”.

“Ela também desempenha um papel fundamental no engajamento entre agências e empresas. Como Assessora de Política Externa, Ayalde fornece ao Comandante e a outros membros do comando sênior assessoramento geopolítico, político-militar e econômico. Ela também apoia o relacionamento do Comando com o Departamento de Estado e as Embaixadas dos EUA no exterior”.

Liliana Ayalde chegou ao Brasil para ocupar o cargo de embaixadora dos EUA pouco mais de dois meses após as grandes manifestações de junho de 2013 e o escândalo de espionagem revelado no mesmo mês em reportagem do jornal britânico The Guardian, que abalou a relação entre os dois paises. O autor da reportagem no The Guardian, Glenn Greenwald,  apresentou, dia 8 de setembro de 2013, no programa televisivo Fantástico, novas denúncias que indicavam a Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA também espionando a Petrobras. Anteriormente, dia 1º de setembro, denúncia havia mostrado a presidente Dilma Rousseff como alvo da arapongagem.

Diplomacia armada

Liliana Ayalde tem muita experiência. Por 24 anos trabalhou na Usaid — a agência estadunidense de “ajuda internacional”, apontada como um dos principais braços da agência de inteligência dos EUA, CIA, estando entre uma daquelas organizações que esparramam dinheiro para instituições que “defendem a democracia” - como tem acontecido com a oposição venezuelana durante o período recente.

Entre 2008 e 2011, Ayalde serviu como embaixadora dos EUA no Paraguai. Deixou o país poucos meses antes do golpe de Estado que derrubou o presidente Fernando Lugo.

No Brasil, também, saiu próximo ao golpe que derrubou Dilma Rousseff. Só que seis meses depois. Dilma foi destituída em dia 31 de agosto de 2016 e Ayalde partiu em 11 de janeiro de 2017.

Faller é um militar experiente, participou de operações de interceptação marítima em apoio às sanções das Nações Unidas contra o Iraque. Esteve também no Oriente Médio nas operações New Dawn, de treinamento e equipagem das forças iraquianas e na Enduring Freedom, liberdade duradoura, no Afeganistão, deslanchada após o ataque de 11 de setembro de 2001, que teve a Marinha à frente de várias ações.

Durante turnê como comandante do USS Shiloh (CG 67) também ajudou vítimas do tsunami na Indonésia. Esta viagem trouxe dor de cabeça para Faller durante a análise de sua indicação para o Comando Sul no 1Senado.

Donal Trump - Big Stick
Donald Trump, presidente dos EUA

A atuação do Comando Sul, como observado em sua Declaração de Postura ao Senado, revela uma íntima colaboração de ações políticas e militares, materializada nos seus personagens centrais: o almirante Craig Faller e a embaixadora Lilian Aayled. Ou como ressalta Missión Verdad, “nas relações políticas da Casa Branca já não se diferenciam a diplomacia do manual estratégico militar”.

 “Para todas as ameaças, o Comando Sul tem uma resposta e uma ação. A ideia nos últimos anos é expandir o trabalho conjunto entre o exército dos Estados Unidos e o resto dos países satélites. O aumento das bases militares norte-americanas em solo latino-americano e caribenho é um fato claro e próprio, e as operações e exercícios que envolvem acima de tudo “assistência humanitária” e “desastres naturais”.

Não é mais aquela diplomacia que apoiou ditaduras milatares como ocorreu nas décadas de 1960 e 1970 na América Latina. Agora, prevalecem os golpes leves, suaves, como no Brasil de 2016. Melhor ainda se conseguirem ganhar as eleições com um candidato de direita / extrema-direita submisso aos interesses dos Estados Unidos. O paraíso seria o governo ser dominado e tutelado por militares. As relações com o Comando Sul e a submissão aos Estados Unidos ficariam muito mais fáceis.

O Big Stick, "grande porrete", do presidente dos EUA Theodore Roosevelt (1901-1909), com Donald Trump vem forrado de veludo e está reservado para os governos e cidadãos recalcitrantes, refratários ao domínio avassalador do EUA - aqueles que são "do mal". Com o Comando Sul, os EUA resgatam o provérbio africano que deu origem ao nome da diplomacia de Roosevelt: “Fale com suavidade e carregue um grande porrete, assim irás longe”.

 


1Questionamento no Senado

Na véspera da reunião em que a indicação de Craig Faller para o Comando Sul seria analisada pelo Senado dos Estados Unidos, o jornal The Washington Post publicou matéria (Almirante marcado para promoções apesar de jantares com "Fat Leonard") sobre a participação de Faller numa “noite memorável” para “mais de 50 oficiais da Marinha dos EUA do grupo de ataque do porta-aviões USS Abraham Lincoln” em Hong Kong. No natal de 2004 “foram convidados para um banquete gratuito no 56º andar de um hotel de luxo, onde saborearam coquetéis, charutos e pratos de caviar Oscietra, trufas negras e thermidor de lagosta”.

Faller foi questinado pela senadora democrata Elizabeth Warren sobre o episódio, pois “o anfitrião” do jantar, Leonard Glenn Francis, “Fat Leonard”, era “um empreiteiro de defesa que desde então confessou ter subornado dezenas de oficiais da Marinha no pior escândalo de corrupção da história da Marinha”, também afirmou “aos investigadores” do Departamento de Justiça, com quem decidiu colaborar, “que pagou uma prostituta para entreter Faller após a festa de Natal de 2004 em Hong Kong, segundo documentos internos da Marinha obtidos pelo The Washington Post”.

Ao final, “autoridades do Departamento de Defesa e Justiça disseram que Faller não cometeu nenhum crime”, está “entre as centenas de oficiais da marinha envolvidos no caso do contratado Leonard Glenn”.

Mas o episódio trouxe dor de cabeça para o almirante diante dos questionamentos da senadora Warren: “Eu só tenho que dizer, isso não cheira bem para mim”. E ainda questionou o militar se não havia “nada que disparasse algum alarme em sua mente, que ele pudesse não atender a padrões éticos”. Faller reafirmou que a presença de todos os oficiais havia sido anteriormente analisada e autorizada e que, inclusive, oficiais femininas haviam participado da jantar festivo.

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