Segunda, 13 Junho 2016 07:49

O comércio do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade

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Após mais de 50 anos liderando a luta para legitimar o Transtorno de Défict de Atenção e Hiperatividade, Keith Conners poderia estar comemorando.

Crianças gravemente hiperativas e impulsivas livraram-se da classificação de sementes ruins e são agora reconhecidas como tendo um problema neurológico real. Médicos e pais têm grande aceitação a drogas como Adderall e Concerta [os dois são também usados no combate do défict de atenção] para tratar os traços clássicos de TDAH, ajudando jovens a ter sucesso na escola e fora dela.

Mas o Dr. Conners não se sentia triunfante quando se dirigia um grupo de colegas especialistas em TDAH em Washington. Ele observou que os dados recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram que o diagnóstico tinha sido feito em 15% das crianças em idade escolar do ensino médio e que o número de crianças que tomam medicamentos para o transtorno tinha aumentado de 600 mil em 1990 para 3,5 milhões. Ele questionou o aumento das taxas de diagnóstico, classificando de "um desastre nacional de proporções perigosas".

 "Os números fazem o TDAH paracer uma epidemia. Bem, ele não é. É um absurdo", Dr. Conners, um emérito de psicólogo e professor da Universidade de Duke, disse em uma entrevista posterior. "Essa é uma engenhosidade justificar aum doação de medicamentos em níveis sem precedentes e injustificável".

O crescimento do número de diagnósticos de TDAH e das prescrições de estimulantes ao longo dos anos coincidiu com uma campanha de duas décadas notavelmente bem-sucedida por empresas farmacêuticas para divulgar a síndrome e promover as pílulas junto a médicos, educadores e pais. Com o mercado infantil crescendo, a indústria está agora empregando técnicas de marketing semelhantes, voltadas para o adulto com TDAH, que pode se tornar um mercado ainda mais rentável.

Poucos discordam sobre o TDAH clássico, que historicamente poderia afetar 5% das crianças, é uma deficiência legítima que impede o sucesso na escola, trabalho e vida pessoal. A medicação muitas vezes alivia a grave impulsividade e incapacidade de concentração, permitindo que prevaleçam as características subjacentes da pessoa e sua inteligência.

Mas mesmo alguns dos defensores de longa data dessa abordagem dizem que o zelo em encontrar e tratar cada criança com TDAH tem levado a que muitas pessoas com sintomas escassos recebam o diagnóstico e medicação. A desordem é agora o segundo diagnóstico mais frequente de longo prazo feitos em crianças, seguindo a trilha do que ocorreu com a asma, de acordo com uma análise do New York Times nos dados do CDC.

Por trás desse crescimento está o marketing da indústria farmacêutica tem expandido a classificação do TDAH clássico para incluir um comportamento relativamente normal como descuido e impaciência, e muitas vezes exagerado sobre os benefícios das pílulas. Publicidade na televisão e em revistas populares como People e Good Housekeeping incluiu o esquecimento e as notas baixas entre as justificativas para o uso de medicamentos que, entre outros benefícios, poderia resultar em um "trabalho escolar correspondente à sua inteligência" e ainda aliviar tensões familiares.

Um anúncio de 2002 do Adderall mostrou uma mãe brincando com seu filho, dizendo: "Obrigado por nos tirar do lixo".

Desde 2000, a Food and Drug Administration [FDA, a agência de controle de medicamentos dos EUA] citou algumas vezes as principais drogas de tratamento do TDAH – estimulantes como Adderall, Concerta, Focalin e Vyvanse e outros como Intuniv e Strattera – por publicidade falsa e enganosa.

Fontes de informação aparentemente neutras também são utilizadas na propaganda da indústria farmacêutica. Os médicos pagos por empresas farmacêuticas têm publicado pesquisas e feito apresentações que incentivam outros médicos a fazer mais frequentemente diagnósticos do que desacreditar as preocupações crescentes sobre o excesso de diagnósticos.

Muitos médicos têm apresentado os medicamentos como benignos - "mais seguro do que a aspirina", dizem alguns - mesmo sabendo que eles podem ter efeitos colaterais significativos e que estão regulamentados na mesma classe da morfina e do oxicodona [um fármaco opioide analgésico, análogo semi-sintético da morfina] por causa de seu potencial para o abuso e a dependência. E mesmo grupos de defesa de paciente já tentaram fazer com que o governo afrouxasse a regulamentação de estimulantes ao ter grande parte de seus orçamentos operacionais cobertos por verbas da indústria farmacêutica.

Autor: por ALAN SCHWARZ - Publicado em 14 de Dezembro de 2013 no The New York Times

Traduzido por Mário Simões

Ler 3315 vezes Última modificação em Terça, 04 Junho 2019 11:36

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