Imprimir esta página
Sábado, 26 Julho 2014 00:20

Ariano, duas histórias

Escrito por
Avalie este item
(0 votos)

A entrevista com Ariano Suassuna iniciou-se na Secretaria de Cultura de Pernambuco e foi encerrada na sua casa, na Rua do Chacon. E duas histórias não entraram no texto original. Fui recebido por Ariano, que vestia uma camisa branca de algodão. No bolso, estava pintado o “seu” símbolo do PSB: “Canudos foi, até hoje, o lugar onde o povo se expressou sem nenhuma imposição de fora nem de cima. Acho Antônio Conselheiro uma figura da maior importância. E o regime lá era socialista. A bandeira que eles usavam era do Divino Espírito Santo. Um dos motivos por que entrei no PSB foi essa simbologia. O meu socialismo é o de Canudos. O pombo deste jeito aqui (mostra o bolso da camisa), dentro do sol, voando da direta para a esquerda. O meu símbolo do PSB é este”.

Ao ser questionado se teria a imagem para ilustrar a matéria, me convidou até a casa dele. Num gesto de desprendimento, arrancou o bolso da camisa com a imagem publicada aqui.

Ariano era sempre questionado sobre seus conceitos e ideias sobre arte. Entre os muitos casos e exemplos que contou na entrevista, disse que debatia com um repórter da Folha de São Paulo sobre arte, exatamente desmistificando os conceitos de arte como ressalta na entrevista. Fez um desafio. Apresentou duas figuras e pediu que o jornalista indicasse qual seria a arte moderna. Segundo Ariano, o rapaz escolheu uma pintura rupestre.

A história de Ariano desnuda exatamente a relação que a Folha de S. Paulo tem com a arte e cultura: o popular é o pitoresco e o folclórico, o maior espaço é para os grandes eventos nacionais e, principalmente, internacionais. Descaracterizando, assim, para usar a linguagem de Ariano, nossa cultura - grande contribuição do “jornal a serviço do Brasil”.

No texto abaixo, Ariano também refere-se a Canudos.

Ariano Suassuna: Esquerda e Direita

Publicado no sítio eletrônico do MST em 24 de julho de 2014

Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.

Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi santa Teresa de Ávila.

Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita.

Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.

De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”.

Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”.

Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade).

Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

Ler 3785 vezes Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2019 18:57
Mário Simões

Mais recentes de Mário Simões

Itens relacionados (por marcador)