Sexta, 18 Abril 2014 12:17

O homem que chorava

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Não sei quem é aquele funcionário da Petrobrás que a câmera pegou chorando, vendo a plataforma afundar. Pode ser um funcionário antigo, pode ser um dos "terceirizados". Também não sei por que chorava.

Acho que nem ele sabia. Pensava nos colegas mortos, estava apenas impressionado com o espetáculo da grande armação indefesa morrendo lentamente como um bicho, chorava de frustração por não ter podido salvá-la, não importa. Era um homem emocionado. E portanto um retrógrado, uma anomalia anônima que obviamente não aprendeu a lição destes últimos anos: a que não se deve ser sentimental com a Petrobras.

A lição é que esses sentimentos ultrapassados - orgulho do que é nosso, a ideia de pertencer a algo que representa mais do que nossas pequenas vidas, ou dono de algo que representa mais do que a ambição do momento e o lucro - são os que nos atrasam, porque negam a realidade e negam os tempos.

O homem que chorava é um anti-histórico. O homem que chorava é um desajustado. O Brasil nunca vai chegar ao Primeiro Mundo com homens que choram assim.

Não quero nem pensar que o choro do homem era mais do que sentimental. Que era um choro informado, um choro sofisticado, um choro indignado, de quem assistia sem poder fazer nada mais um episódio do assassinato da Petrobras por ela mesma. Prefiro a pieguice. Prefiro que o homem também não saiba por que chorava. Prefiro as lágrimas sem retórica, sem arrazoado, até sem razão.

Quem sabe a pieguice não seja a nossa última resistência? Talvez a alternativa para o que querem fazer de nós sejam coisas do pior gosto possível, coisas antigas, embaraçosas - idealismo, patriotismo, essas infantilidades. Talvez nossa única defesa, enquanto tentam nos arrastar para o mundo sem sentimentalismos obsoletos dos grandes, seja espernear, e chorar, como crianças.

Mas o homem que chorava também podia estar chorando porque tem vergonha na cara. Neste caso sim, estaríamos, decididamente, diante de uma raridade nacional.

Por Luis Fernando Veríssimo, publicado em "O Globo", em 21/3/2001 por ocasião do acidente da Plataforma p36 da Petrobras.

Ler 5853 vezes Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2019 18:42

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