Sexta, 25 Julho 2014 19:13

Fortalecer a cultura brasileira para não se descaracterizar

Ariano Suassuna: “não sou xenófobo, eu não gosto do que é ruim” e “se fortalecermos o tronco cultural de nossa cultura, o que vier de fora será uma incorporação enriquecedora e não uma influência que nos descaracteriza”.

Em 1995, editava um jornal para o Partido Socialista Brasileiro (PSB), que era comandado por Miguel Arraes, governador de Pernambuco, com quem Ariano Suassuna tinha uma longa história de amizade e eram até vizinhos na Rua do Chacon. Seria realizado o V Congresso do partido e foi programada uma edição especial. Eu tive a alegria e o prazer de fazer uma entrevista com o Secretário de Cultura do governo de Pernambuco, Ariano Suassuna. Reproduzo aqui o texto como uma singela homenagem a Ariano, suas ideias são um espetáculo que permanece.

Na véspera de completar 50 anos de vida literária e de comemorar 25 anos de Movimento Armorial, o poeta, romancista, gravador e dramaturgo Ariano Suassuna falou com o Brasil Socialista sobre sua luta em defesa da cultura brasileira. No dia seguinte, 7 de outubro, um sábado, a Rua do Chacon foi invadida pelos amigos e admiradores. Ali fica sua casa, com fachada em azulejos português – um verdadeiro templo à cultura brasileira, com direito a altar, santos e um profeta da resistência. É na musicalidade e entonação que o sertanejo empresta à sua sinceridade que Ariano explica sua visão da arte: “não sou xenófobo, eu não gosto do que é ruim”. Com simplicidade de um repentista popular, tece sonhos de dignidade para a arte brasileira: “se fortalecermos o tronco cultural de nossa cultura, o que vier de fora será uma incorporação enriquecedora e não uma influência que nos descaracteriza”. Essa visão Ariano tem levado a todo o estado, através da Secretaria de Cultura.

O seu projeto é o de fortalecer a cultura brasileira. Como o senhor vê o atual processo de internacionalização da cultura?

Não tenho nada contra a internacionalização, nem do país nem da cultura, desde que ela, do ponto de vista do país, não importe no saque de nossas riquezas e do nosso patrimônio em detrimento do homem brasileiro; e, do ponto de vista da cultura, desde que a internacionalização não implique uma uniformização achatadora, monótona, que, na minha opinião, é profundamente indesejável. Eu aceito a internacionalização, desde que sejam respeitadas as singularidades e as peculiaridades nacionais, que cada cultura tem. É isso que vai fazer com que cada país possa contribuir com uma nota pessoal, individual, particular para o imenso concerto da cultura universal. Na minha opinião, não existe nenhuma boa arte que seja internacional de início. Toda arte é nacional de início. Ninguém é mais alemão do que Goethe. Ninguém mais espanhol do que Cervantes. No meu entender, a arte universal é aquela que se universaliza pela qualidade e pela divulgação. Não acredito em uma arte que busca uma especie de esperanto cultural, que fosse válida para todas as nações.

A diversidade é um fator determinante no processo cultural?

Sem dúvida. Você deve procurar a unidade na variedade. Essa é que é a verdadeira cultura universal; quer dizer, uma unidade que respeite a multiplicidade, a imensa gama de variações de uma cultura para outra.

O homem é o mesmo em todo canto, os problemas do homem são os mesmo em qualquer lugar. Quais são os problemas do homem? Solidão, desespero, injustiça, opressão, doenças, morte … Mas, a maneira como cada cultura enfrenta estes problemas é peculiar, é diferente. E é simpático que seja assim. Quando leio um romance russo, não espero encontrar a mesmo coisa que lendo um romance escrito em Nova Iorque. Eu quero encontrar os problemas do homem, que são os mesmos, mas da maneira que o homem russo os enfrenta. O que chamam de arte universal, a meu ver, é a arte universalizada pela boa qualidade.

O grande escritor russo Tolstoi dizia uma frase que é muito citada e muito conhecida, mas eu acho muito boa, e vale a pena repetir: pinte bem a sua aldeia que você será universal, que você pintará o mundo. Em qualquer aldeia do Brasil, ou da Rússia, ou dos Estados Unidos, ou da China, os problemas do homem são os mesmos. Se pintar bem, será universal. Se pintar mal, cairá no pitoresco, no mal resolvido e, daí, é ruim de qualquer jeito, seja escrito em Nova Iorque, seja escrito lá nos confins da Índia.

O Dom Quixote era um obra tipicamente espanhola, e mais do que espanhola, era uma obra de Castela, pois Cervantes era da província de Castela. Ela se universalizou porque ele tratou dos problemas daquele homem em particular, espanhol e do século XVII. Para usar a expressão do Tolstoi, ele pintou bem a aldeia dele e se tornou universal. E toda obra universal, no meu entender, é assim. Seja em que arte for. Ninguém é mais francês do que Debussy, mas a música dele é universal, de primeiríssima qualidade. É essa a minha posição e a posição que sustento no projeto Pernambuco-Brasil.

Como o senhor consegue, como Secretário, articular a prioridade à cultura popular …

Isso não é verdade. Os meios de comunicação têm espalhado, mas não é verdade. Eu dou prioridade à cultua brasileira, seja erudita, seja popular. Eu falo muito da popular, porque ela é a mais desassistida, a mais marginalizada, que é tratada com mais desprezo.

É a que precisa de mais apoio …

E a que precisa mais, no entanto, no que se refere ao Brasil em geral e ao Nordeste em particular, a cultura popular produz obras de uma qualidade enorme. Veja (mostra gravuras): um gravador popular e um erudito, todos os dois de excelente qualidade. Aqui estou mostrando uma escultura indígena brasileira e outra de Picasso, para mostrar o parentesco. A minha primeira luta é para evitar este preconceito contra a arte popular: pelo simples fato dela partir do povo, fica marginalizada e é tratada como se fosse uma coisa apenas pitoresca, de interesse folclórico.

Como o senhor consegue conciliar este apoio à arte brasileira, sendo secretário e, certamente, tendo demandas de outras manifestações culturais?

Em primeiro lugar, faço uma distinção entre as maneiras diferentes de acolher o que vem de fora. Eu sempre procurei identificar o que seria brasileiro. Às vezes sou acusado de xenófobo, mas vou mostrar que essa acusação não tem validade.

Decidi definir o tronco do que é a cultura brasileira. É aquela que decorre da fusão da cultura ibérica, da cultura negra e da cultura indígena. Isto não que dizer que não considere os pontos de influência decorrente de outras culturas que aqui aportaram. Estou perfeitamente consciente de que vieram italianos, franceses, japoneses, alemães. Não tenho nada contra essas culturas. Cito muito a influência do teatro japonês sobre minha visão do teatro brasileiro. Devemos procurar fazer em relação à cultura brasileira o que os cineastas e dramaturgos japoneses fizeram em relação ao nô e ao kabuk. Você vê um filme de samurai de Akira Kurosawa e vê que se baseou neles. Então acho que devemos olhar o nosso teatro popular, que corresponde ao nô e ao Kabuk no Japão. Devemos olhar como o povo se veste, por exemplo, para representar. Veja (mostrar a foto um de guerreiro do teatro popular brasileiro), por exemplo, para mim, o que o nô e kabuk correspondem para Kurosawa.

Quando digo que devemos fortalecer o tronco da cultura brasileira, formado pelo ibérico, o negro e o indígena, é porque se conseguirmos isso, se conseguirmos fazer deste núcleo da cultura brasileira uma coisa forte, então o que nos vem de fora, em vez de ser uma influência que nos descarateriza, passa a ser uma incorporação que nos enriquece. Para mim a diferença está ai.

Eu tenho uma desconfiança muita grande com a arte de massa que os americanos andam espalhando para o mundo como se fosse um denominador comum. Se não abrirmos o olho, ela vai levar o mundo ao cosmopolitismo achatador, uniformizador e monótono. Isso para mim é a caricatura do universal, pois nega a diversidade. Não respeita a singularidade de cada país, de cada região, até de cada local. Então, não aceito influências que nos descaracterizam, aceito incorporações que nos enriqueçam.

Veja mais duas histórias que não sairam no texto.

Mesmo aceitando a definição, a compreensão é diferenciada do que seria brasileiro. Isso tem criado alguma dificuldade?

Vieram me perguntar, logo que assumi a Secretaria, se eu iria apoiar festivais de rock? Não apoio e não há quem me faça. Primeiro, tenho pouco dinheiro. As entidades que lidam com a cultura, no país todo, estão vivendo um momento de penúria. Então, não vou pegar as poucas verbas de que disponho aqui na Secretaria para apoiar festival de rock. Meu dinheiro é tão pouco que eles, habituados a grandes somas, iriam me levar na graça. Depois, eu não vou gastar dinheiro em uma atividade que o mercado já apoia. No meu entender, o papel do Estado é apoiar aquelas iniciativas que o mercado não apoia.

Às vezes as pessoas me perguntam se sou contra a cultura americana por que não gosto de rock. Eu digo, não gosto de rock não é por ele ser americano, é porque ele é ruim. Não tenho nada contra a cultura americana. Um escritor como (Herman) Melville, por exemplo, eu admiro profundamente. Ele é autor de uma obra-prima da literatura, uma grande obra, americana até o osso, e universal: Moby Dick. Em tudo ela é americana. A caça ao monstro, a caça às bruxas. O fascínio pelo mal, disfarçado por aparências puritanas. Não é à toa que o capitão Acab, o personagem de Moby Dick, é um puritano, um quaker. Ele não perdoa, quer destruir o mal que para ele é a baleia branca. É uma história profundamente americana, mas é universal, pois é uma cópia do homem de todo o canto. Não tenho nada contra Melville, mas contra Michael Jackson e Madonna, eu tenho. Porque são ruins.

Vou lhe contar um caso: eu fui fazer uma conferência no Congresso das Mulheres Brasileiras. Antes de eu falar, chamaram um jovem bailarino de Vasco da Gama, que é um subúrbio aqui do Recife. Quando vi era Michael Jackson. O famoso cover. Quando fui falar, eu hesitei. Fiquei .. aperreado mesmo. Vou magoar este pobre rapaz que não tem culpa nenhuma. Mas depois … afinal de contas, como Secretário de Cultura tenho até uma função didática. Falei. Disse que ele não tinha culpa, que não ficasse magoado comigo. Mas aquilo estava errado. Ele podendo ser um excelente bailarino brasileiro, estava fazendo um americano de segunda ordem. Depois ele me procurou aqui na Secretaria. Por acaso estava promovendo um grande grupo de dança americano que é o David Parsons, que havia me pedido para levar uns músicos. Eu levei músicos e bailarinos. Aliás, foi o ponto alto do espetáculo, depois o americanos e, ao final, os dois improvisaram juntos. Aí levei Michael Jackson, que se chama Alessandro Mesquita. Sentou-se ao meu lado. Depois me mandou um recado: “continuo querendo ser bailarino, mas não quero ser mais Michael Jackson, quero ser Alessandro Mesquita.”

Foi um vitória …

… uma vitória. Pois bem, aí chego em Bezerros, uma cidade do interior … e encontro outro Michael Jackson. Mas eles andam me perseguindo … não aguento mais (rindo). Mas também enfrentei e vamos fazer um trabalho de dança com ele também.

São 25 anos do Movimento Armorial ..

É … amanhã … e completo também 50 anos de vida literária.

Que avaliação o senhor faz desta “luta contra o processo de vulgarização e descaracterização da cultura brasileira”, como o senhor definiu o Movimento Armorial?

Além disto, a proposta seria também a recriação erudita do popular. Vou lhe dar alguns exemplos. O gravador do Movimento, Gilvan Samico, passa a gravura popular do cordel, mas faz uma recriação. E a gravura dele tem o uso dos símbolos. O uso destas (mostra a gravura) grande manchas negras e branca. Ele trouxe uma novidade: a gravura popular antigamente não tinha cor, era toda em preto e branco. Depois dele, a gravura popular usa cor. Quer dizer, ele recebeu um caminho do popular e devolveu outra contribuição.

Isso mostra a vitalidade do Movimento?

É uma vitalidade sim. Mas a prova da vitalidade no Movimento Armorial eu vou citar em fatos que não estão ligados propriamente à arte e à literatura. Recebi um convite de um jovem estilista pernambucano, que fez muito sucesso em São Paulo. Ele está fazendo sua alta costura baseada nas formas da arte popular do Nordeste. Ele disse que o caminho de sua formação passava, inclusive, pelo Movimento Armorial.

Recebi, de Paris, uma fita do grupo Companhia Armorial. Me mandaram a fita exatamente mostrando a ligação com o Movimento. Um quinteto de música erudita gravou, na gravadora inglesa Nimbus, um disco só de música Armorial.

No seu projeto o senhor fala em falsas contradições...

É contra a arte arcaica e a arte de vanguarda, a arte nacional e a arte universal, a arte popular e a arte erudita. No meu entender, essas categorias não valem. Para mim é arte boa e ruim. A de qualidade e a de má qualidade. A arte não pode ser julgada pela origem econômica e social do artista.

Vou lhe dar outra informação a respeito da vitalidade do Movimento Armorial e da ação da Secretaria. O diretor regional da Globo, Cleo Nicéas, disse que queria me dar um depoimento, o que não significa, falou, que está de acordo como o que digo. Não me lembro os números que ele disse, mas são expressivos: os comerciais baseados na cultura pernambucana aumentaram. “Nunca tinha acontecido isso na televisão. E estou atribuindo isso à sua atuação na Secretaria de Cultura”. Está havendo uma retomada da cultura pernambucana e esse pessoal, que é muito esperto, está aproveitando. Vou lhe dizer, o São João este ano foi como nunca. Graças a Deus estamos conseguindo.

Última modificação em Sábado, 06 Agosto 2016 06:36

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