Quarta, 16 Julho 2014 07:25

O gesto dos jogadores alemães é muito grave

O time alemão que fez uma cativante exibição de futebol no Brasil, deixa cair a máscara:  de volta a Berlim, fizeram uma repugnante manifestação racista: "So gehen die Gauchos, die Gauchos, die gehen so. So gehen die Deutschen, die Deutschen, die gehen so". Veja o vídeo: gaúchos andam assim, alemães andam assim. Contra a hipocrisia dos sorrisos e abraços  em Santa Cruz de Cabrália, só uma punição rigorosa da justiça alemã.

O racismo é um chaga que marca a sociedade alemã e muitas outras mundo afora, inclusive a nossa.

O gesto dos jogadores ganha, assim, uma relevância ainda maior, pois fortalece um espectro de intolerância que ronda a Alemanha e toda a Europa: a extrema direita xenófoba e violenta. Em momento especial de comemoração, seis jogadores (Klose, Schürrle, Mustafi, Götze, Weidenfeller e Kroos), cercados por uma multidão no Portão de Brandenburgo, jogam por terra todo o esforço que aquela sociedade tem feito para enfrentar os ventos do passado e o ódio racial.

E no contexto do futebol alemão, fica ainda mais grave seus gestos, pois a questão racial tem sido crucial no esporte. Durante a Copa do Mundo de 2006, o presidente do NPD (Partido Nacional Democrata da Alemanha), Udo Voigt, de extrema direita, foi condenado a uma pena de sete meses sob liberdade condicional por incitação popular e ofensa racista contra o jogador de futebol Patrick Owomoyela.

A crise econômica tem levado para a Alemanha muitos imigrantes. Em 2001, ocorreu a maior entrada de estrangeiros desde 1996. E junto com a entrada dos imigrantes, setores da sociedade alemã intensificaram manifestações racistas.

O futebol tem sido um instrumento importante para combater o racismo no pais. Em 2012 foi realizada uma campanha que indica a relevância do futebol no combate ao preconceito: em um final de semana, durante as partidas de futebol da Bundesliga, as publicidades das camisas foram substituídas por mensagem da campanha contra o racismo, que contou inclusive com a participação da primeira-ministra Angela Merkel. O assunto é tão relevante que a Bundesliga, campeonato da primeira divisão, contratou um assessor para o tema integração.

Para combater o racismo e o extremismo de direita no contexto do futebol alemão, muitos projetos com jogadores e torcidas organizadas surgiram no país. O presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Theo Zwanziger, também declarou o tema racismo e discriminação como "assunto de primeiro escalão".

Em 2012 completaram 20 anos de uma jornada racista que marcou a sociedade alemã: em agosto de 1992 um grupo de cidadãos e radicais de direita sitiaram no bairro de Lichtenhagen, na cidade alemã de Rostock, um bloco de um conjunto residencial pré-fabricado. Durante três dias atacaram o abrigo de imigrantes, conhecido como Plattenbau – "edifício girassol", devido à pintura da fachada.

O vandalismo e o ódio foram direcionados contra os trabalhadores vietnamitas que permaneceram no edifício. Grupos neonazistas começaram então a explorar os tumultos para fins de propaganda; vindos de longe se misturaram aos hooligans e moradores locais. Logo, uma multidão furiosa de quase mil pessoas se encontrava diante do edifício.

Wolfgang Richter, responsável por questões ligadas a estrangeiros no estado, estava no prédio quando a violência aumentou. A dimensão dos ataques o deixou sem palavras: "Eles não se importavam com o fato de no prédio haver mais de cem pessoas, que poderiam ter morrido durante o incêndio criminoso".

A Deutsche Welle (DW), no texto "Integração de imigrantes no futebol alemão funciona melhor no campo" escreveu: "sem jogadores com histórico de migração, nenhum clube alemão de futebol poderia sobreviver na primeira divisão, como também seria problemático formar uma seleção nacional alemã. Atribui-se ao futebol um papel de precursor da integração de estrangeiros e imigrantes na Alemanha. Uma pesquisa da Fundação Heinrich Böll apontou que cerca de metade dos 2 milhões de crianças e adolescentes que praticam o esporte em associações na Alemanha é descendente de imigrantes".

A migração, portanto, está na raiz da vitória alemã na Copa do Mundo de 2014, é um fator de extrema relevância. E os seis jogadores da performance racista convivem com colegas descendentes de imigrantes, no futebol e na seleção. Estiveram no Brasil, conviveram com o povo brasileiro e demonstraram simpatia e amabilidade. Claro que constava de uma agenda da seleção para ter apoio de torcedores. Mas muitas outras seleções não apresentaram a simpatia dos alemães. Imagina-se, agora, a hipocrisia de seus gestos. Pelo menos dos seis manifestamente racistas.

A exemplo do que aconteceu em 2006 com o presidente do partido de extrema direita, os seis jogadores da seleção alemã deveriam responder exemplarmente na justiça por seus gestos e receberem punição rigorosa. Caso contrário, todo o esforço da sociedade de combate ao racismo vai refletir somente a mesma hipocrisia demonstrada nas terra de Santa Cruz de Cabrália pelo seu selecionado.

Matéria sobre o tema foi publicada no Portal Carta Maior.

 

 

 

 

 

Eu torci para a Alemanha na partida final da Copa do Mundo contra a Argentina. O que me moveu foi meramente a rivalidade que nos divide dos hermanos no futebol. Eu estava errado, deveria ter torcido para os dois perderem.

 

 

Última modificação em Quarta, 16 Julho 2014 19:26

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