Quinta, 10 Julho 2014 13:12

Encerrar o ciclo aberto com a derrota de 1982

A goleada acachapante de 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil remete diretamente à tragédia de 1950, o Maracanaço, quando perdemos para o Uruguai em casa, como agora.

Melhor, no entanto, é lembrar de 1982, outra mágoa do futebol nacional quando perdemos, não em casa, mas com um time excepcional. Não que haja paralelo entre as duas seleções, o vínculo entre os dois episódios está no fato de 2014 encerrar uma etapa da história do futebol brasileiro aberta com a derrota de 1982.

Por isso, apesar dos 7 x 1, a pior derrota continua sendo a de 1982, pois na prática, ainda interfere no nosso jogo. No último dia 5 de julho completaram 32 anos da “tragédia de Sarriá”, em Barcelona, na Espanha, quando o Brasil perdeu de 3 x 2 para a Itália e abandonou a competição antes das quartas de final, dando adeus à chance de chegar ao tetra.

Depois disso, fomos mais duas vezes campeões do mundo. Em 1994, com Carlos Alberto Parreira como técnico, e em 2002, quando o técnico foi Luiz Felipe Scolari.

Três décadas de busca desordenada

Durante essas três décadas o Brasil viu e viveu uma enorme transformação no futebol, fora e dentro de campo. E entre altos e baixos, não conseguimos fazer uma transição convincente. O jogo bonito, ofensivo, com esquema que respeitava as característica do nosso futebol vitorioso em 1970 e derrotado em 1982 foi abandonado por uma concepção de futebol, burocrática e distante de nossa história e nossa cultura.

Nesses 30 anos, apesar dos sucessos momentâneos como 1994 e 2002, o Brasil não encontrou o seu futebol. A trágica derrota de 2014 é o coroamento dessa tentativa frustrada de fazer evoluir o futebol brasileiro.

Ao tentar incorporar as evoluções que o futebol mundial registrava, o Brasil, com sua atávica mania de copiar modelos, não soube adaptá-las à nossa realidade. Prevaleceu a visão colonialista que não nos abandona. Ao colocar-nos de forma inferiorizada, perdemos mesmo a capacidade de entender os desafios enfrentados por outros países e perceber como foi exatamente sua experiência. Simplesmente pretendemos reeditá-la por aqui.

Foi assim com os overlapping de Coutinho em 1978 e com os alas de Lazaroni em 1990. O chamado 3-5-2 era muito usado em clubes e seleções europeias e, hoje, o ala está definitivamente incorporado ao futebol. Mas o Brasil ainda não conseguiu utilizá-lo com sabedoria. Daniel Alves ou Maicon, era um dos debates a respeito do time que jogou a copa e enfrentou a Alemanha, perdido em uma concepção desfocada de nossa realidade. Apesar do esforço e do compromisso com o país, os jogadores eram estrangeiros na própria pátria.

O esquema tático não pode ser uma camisa de força a ser vestida pelos jogadores. Deveria ser definido em função do material humano disponível. Assim, defesa, meio de campo e ataque, marcação e armação deveriam ter a harmonia de uma orquestra, em que cada instrumento é tocado segundo suas características e na hora exata.

Essa balbúrdia se reflete diretamente no Campeonato Brasileiro, que sofre também, só para registrar, com as transformações que o futebol viveu nessas três décadas fora do campo.

E é por isso que 2014 representa bem a Era inaugurada com a derrota de 1982.

Falso dilema: arte x força

O chamado futebol-força sempre foi a marca em geral dos europeus e os avanços na área da medicina esportiva proporcionaram vantagens. A preparação física passou a ocupar um papel de destaque no futebol. O condicionamento físico, amparado por métodos científicos, trouxe alterações que influenciaram a dinâmica das partidas: um aumento do fôlego dos jogadores, que passaram a correr mais e ocupar melhor os espaços no campo. Com maior preparo físico, fez surgir os jogados multitarefa, aqueles que realizam mais de uma função na equipe.

E o futebol evoluía. O erro não está em tentar incorporar essas vantagens ao futebol brasileiro, mas renegar o nosso estilo. E foi isso que as derrotas de 1982 e 1986 facultaram.

Abriram o caminho para a visão que valoriza mais o que vem de fora, sempre. O passo natural foi a tentativa de copiar modelos esdrúxulos à nossa cultura futebolística.

Vivemos nesse falso dilema desde então: futebol-arte x futebol-força. A força do nosso futebol está na arte. E a arte é saber colocar as conquistas da força física e da velocidade a serviço do nosso estilo. Abandonamos o futebol ofensivo, que valorizava o craque para um futebol defensivo pautado no medo. Não precisamos abrir mão do craque para ter conjunto. Não podemos abrir mão da capacidade de driblar, das jogadas de habilidade, da improvisação e da criatividade. O que não tivemos é capacidade de fazer uma síntese e evoluir, incorporando o novo sem perder nossas maiores qualidades.

Esse é o dilema que a derrota de 2014 joga novamente em nossa cara.

E agora? Vamos copiar quem?

Se antes tínhamos que copiar a Espanha, com seu tiqui-taca. Agora veremos muitos sugerindo que a Alemanha seja a referência. Há ainda os extremamente colonialistas que extrapolam o futebol e ressaltam a superioridade alemã em tudo. Em suma, fomos derrotados por que eles são mesmo superiores, temos que aceitar e copiá-los. São os que falam da "vitória da competência sobre a malandragem". Os mesmos que antes diziam "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Coitados, estão ultrapassados e não sabem!

Temos que encerrar o ciclo iniciado em 1982 de negar nossas qualidades e tentar simplesmente copiar o que deu certo lá fora. Temos que analisar e conhecer o que dá certo em outros lugares, como na Alemanha, sim, mas para incorporar o que for positivo para nós sem perdermos nossa essência. Assim poderemos evoluir sem nos fecharmos nos limites dos nossos limites.

Os alemães fizeram muitas mudanças, combateram a corrupção, realizaram planejamento de longo prazo, investiram nos clubes. Mas, principalmente, se abriram para o mundo e talvez a grande mudança tenha sido perceber seus limites, aceitá-los e buscar superá-los.

Um desses limites, que ainda persiste, é a forte presença do racismo na sociedade alemã. Ainda hoje exige empenho no seu combate: em 2012, uma campanha mobilizou a própria primeira-ministra, Angela Merkel, usando o futebol como instrumento - publicidade nas camisas foi substituída por mensagens contra o racismo.

E embora isso não pareça ter nada com o futebol, pode ter feito uma grande diferença. Matéria da Deutsche Welle, em português, “Integração de imigrantes no futebol alemão funciona melhor no campo” foi aberta com o seguinte texto:

“Eles se chamam Podolski, Klose, Özil ou Asamoah – sem jogadores com histórico de migração, nenhum clube alemão de futebol poderia sobreviver na primeira divisão, como também seria problemático formar uma seleção nacional alemã.

Atribui-se ao futebol um papel de precursor da integração de estrangeiros e imigrantes na Alemanha. Uma pesquisa da Fundação Heinrich Böll apontou que cerca de metade dos 2 milhões de crianças e adolescentes que praticam o esporte em associações na Alemanha é descendente de imigrantes.”

Portanto, a nossa miscigenação, que nos permitiu reinventar o esporte formatado na Inglaterra no século 19, foi um dos fatores que empurraram a Alemanha.

E em outro aspecto estão as escolas com crianças praticando o futebol, que antes tínhamos nas nossas várzeas, que dão a base para um trabalho contínuo e responsável, que vai gerar frutos nas gerações que se seguem.

Isso tudo nós já tínhamos e fomos deixando escapar por uma série de contingências. Mais, muitas de nossas caraterísticas vindas da várzea e da miscigenação que têm sido combatidas desde 1982. Vamos voltar à várzea? Óbvio que não. Não se trata de saudosismo romântico. É preciso encontrar caminhos para seguir em frente.

O que não é admissível é, em nome de um falso profissionalismo, perder o improviso, em nome de esquemas rígidos, esquecer nossa habilidade individual.

O caminho corajoso dos alemães foi exatamente o contrário. E é só isso que devemos aproveitar de sua experiência. Coragem para reconhecer que estamos há três décadas tentando encontrar um caminho, mas negando exatamente aquilo que nos diferencia e nos qualifica como país do futebol.

É hora, portanto, de enterrarmos esse ciclo aberto em 1982.

Mas é preciso ir além e reconhecer que o futebol é um patrimônio cultural e imaterial do Brasil e não deixá-lo entregue a gangues e quadrilhas como as que habitam os clubes e a CBF. Os candidatos às próximas eleições deveriam assumir compromissos com a reformulação da estrutura corrupta do nosso esporte, inclusive envolvendo os fabulosos interesses da grande mídia.

Assim poderemos aproveitar o chocolate tomado no Mineirão e reescrever a história do futebol, como fizeram os alemães quando perderam em casa.

Última modificação em Quinta, 10 Julho 2014 15:51

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