Sábado, 05 Julho 2014 23:32

Garrincha, o "pardal" do futebol brasileiro

No Brasil, o futebol é praticado como um culto coletivo. No panteão desta religião popular, duas figuras dominam: a de Pelé, o negro, e Garrincha, o índio.

O admirável documentário "Pelé, Garrincha, deuses do Brasil", de Jean-Christophe Rosé, que foi exibido na quarta-feira, 4 de junho, pelo canal por assinatura Arte, conta estes dois destinos contrastados.

Se você gosta de futebol e do Brasil, já sabe de cor e salteado tudo o que será narrado a seguir. Infelizmente, enquanto todos conhecem Pelé, a grande maioria dos franceses, de mesma forma que os cidadãos de muitos outros países do mundo, ignoram quem é Garrincha. O que é uma lástima! Manoel Francisco dos Santos, mais conhecido como Garrincha, talvez seja o personagem mais extraordinário da história do futebol brasileiro. Ele nascera em 1933, a 80 km da cidade do Rio de Janeiro, numa família extremamente pobre. Ele tinha sangue índio nas veias, e um pouco de álcool também, herdado do seu pai. Ele sofria das mais diversas malformações congênitas, todas as quais ele transformou em vantagens. Para citarmos apenas dois exemplos, as suas duas pernas eram arqueadas, uma para o lado de dentro, a outra para o lado de fora, e, na idade adulta, uma delas era mais comprida do que a outra em seis centímetros...  

Conforme se percebe, tudo isso não o predispunha para o futebol, mas, quando criança, ele impressionava seus parentes e colegas com os seus dribles maliciosos. A sua irmã Rosa o apelidara de "Garrincha", do nome de um passarinho que prefere morrer antes de se deixar apanhar. Mais tarde, ele foi chamado de "Alegria do Povo", de tanto que ele entusiasmava as plateias que lotavam estádios inteiros, zombando dos seus adversários, que ele driblava, desafiava com insolência, driblava de novo, antes de dar um passe ou enviar a bola para dentro das redes. Aquilo era um espetáculo incrível, do qual o filme de Jean-Christophe Rosé apresenta inúmeros exemplos. Garrincha era capaz de retornar para a situação inicial após ter driblado um jogador do time adversário, para então recomeçar mais uma vez esta divertida experiência, antes de emplacar mais um gol.

Após ter chamado a atenção por esta sua agilidade diabólica, ele é contratado em 1953 pelo Botafogo, do Rio, e entusiasma o seu público. Mais tarde, ele integra, junto com Pelé, a seleção brasileira que vence em 1958 a sua primeira Copa do Mundo. Sem demora, as trajetórias dos dois jogadores revelam ser muito diferentes.

Pelé sorri o tempo todo, ganha dinheiro e agrada a todo mundo, inclusive aos militares que tomaram o poder em 1964. Garrincha, por sua vez, mostra-se mais rude. Assim como Pelé, ele adquira a fama de sedutor com as mulheres, mas ele não gosta nem dos militares nem das festas da alta sociedade. Ele vive uma paixão tórrida com a cantora negra Elsa Soares, e então deixa mulher e filhos. Sem demora, ele vai afundando na decadência. Garrincha morre em 1983, sem um tostão, depois de uma crise de delirium tremens, decorrente da síndrome de abstinência de álcool. Os habitantes das favelas do Rio descem dos seus morros para acompanharem o enterro deste passarinho suicida, deste pardal de legenda.

Dominique Dhombres

Tradução: Jean-Yves de Neufville

publicado no jornal Folha de S.Paulo.

Publicado originalmente no Jornal Le Monde.

Última modificação em Sábado, 06 Agosto 2016 06:34

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