Sábado, 24 Agosto 2019 11:47

O Brasil 150 anos após a morte de Brás Cubas

Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna.
Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Neste agosto de 2019 registra-se o sesquicentenário da viagem de Brás Cubas “à roda da vida”, como escreveu Joaquim Maria Machado de Assis no seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. O dia exato do passamento não é conhecido. Poderia ser 6, 13, 20 ou 27 – as quatro sextas-feiras do agosto de 1869. Esse senhor de “uns sessenta e quatro anos” expirou em sua “bela chácara de Catumbi”, no Rio de Janeiro, “às duas horas da tarde de uma sexta-feira … Acresce que chovia — peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste”. Agosto de 1869 foi realmente um mês de pouquíssima chuva, o seu índice pluviométrico foi 5mm contra uma média de 47,3mm dos agostos de 1851 a 1889 (1).

Brás Cubas tinha 63 anos e 10 meses. Nascera em 20 de outubro de 1805, menos de três anos antes da chegada da família real portuguesa ao Brasil. A referência à transferência da Corte Portuguesa não é gratuita, a história do Brasil está muito presente na obra. “Seguiremos aqui a descoberta de John Gledson, que vem mostrando o papel que têm na ficção machadiana alguns episódios políticos destacados, tais como a Independência, a Abdicação de D. Pedro I, a Maioridade, a Conciliação do Marquês de Paraná, a Lei do Ventre Livre, a Abolição e a República. Segundo a indicação de Gledson, mais que simples localizações no tempo, as datas apontam as questões históricas a que as peripécias ficcionais e a composição dos caracteres tomam emprestada a substância. No extremo, esta leitura transforma o romance em alegoria política” (2) .

O Memórias representa uma significativa mudança em Machado, a ponto de ser considerada o início de uma nova fase. “Sai de cena o narrador constrangido dos primeiros romances, cujo decoro obedecia às precauções da posição subalterna, e entra a desenvoltura característica da segunda fase, a ‘forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre’, cujo ingrediente de contravenção sistemática reproduz um dado estrutural da situação de nossa elite” (3).

Hoje, apesar do século e meio que nós separa de Brás Cubas, a obra de Machado “absolutamente não envelheceu”. Ao contrário, “ao transpor para o estilo as relações sociais que observava, ou seja, ao interiorizar o país e o tempo, Machado compunha uma expressão da sociedade real, sociedade horrendamente dividida”. Ainda que tenha transcorrido um tempo tão longo e a sociedade brasileira tenha vivenciado tantas transformações, uma parte substancial dos termos daquelas relações sociais do século XIX ainda estão presentes no Brasil de hoje (4).

E a obra do defunto autor apresenta-se em toda sua vivacidade. E nos provoca a enviar “ao diabo as conveniências” e sair do livro direto para a realidade. Para isso, volto ao professor Roberto Schwarz, não sem antes ressaltar que nem ele nem nenhum autor citado tem responsabilidade direta sobre a leitura aqui feita das personagens e de suas vivas memórias.

O Emplasto Lava Jato

“O acento satírico” de Memórias “sugere que ciência, política, filosofia etc. aqui não passam de afetação. Nem por isso deixam de ser presenças atuantes, indispensáveis à fisionomia da personagem, que não seria ela mesma se não ambicionasse glória, fortuna, saber e um ministério” (5).

“Glória, fortuna, saber e um ministério” nos dias de hoje têm nome e sobrenome. Salta-nos aos olhos uma dúvida pungente: como a genialidade do Bruxo do Cosme Velho (6) pode nos remeter tão diretamente à mediocridade dos aprendizes de feiticeiro de Curitiba, se o primeiro leu o “livro inteiro” da vida, os demais sequer compreenderam o Código Penal? Lava Jato e Brás Cubas encontram-se no charlatanismo do Emplasto, na pretensão de apresentarem-se como capazes de entender e definir a alma brasileira e identificar a origem de sua “enfermidade”. Indo mais longe, arrogam-se não somente em apresentar uma solução, mas em ser a própria solução. O professor “Gledson levanta uma boa pergunta: e se Brás fosse o Brasil, de que seu nome é a primeira sílaba?” (7)

Brás Cubas pretendeu “nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplastro anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade”. E o que foi a Operação Lava Jato senão uma panaceia, “um emplastro anti-hipocondríaco” para uma humanidade, a brasileira, melancólica, sofrendo de um “estado mórbido caracterizado pelo abatimento mental e físico” (hipocondria) diante da corrupção, o mal maior do Brasil, porque responsável por todos os males - o diagnóstico é terrivelmente equivocado, diante de uma sociedade "horrendamente dividida". A escolha da “corrupção dos tolos” (8) como a “doença” a ser tratada, como a origem da hipocondria da sociedade brasileira, revela muito mais do juiz e dos procuradores, sua posição social e compromisso de classe.

O historiador italiano Piero Camporesi lembra que “afecções melancólicas e hipocondríacas, acompanhadas por crises depressivas", foram características das classes abastadas. "Nas classes subalternas, a tendência estaria relacionada a um mal-estar social, uma reação patológica à sua condição repressiva” (9). Portanto, um diagnóstico correto sugeriria ações para combater o "mal-estar social". Os "doutores" da Lava Java receitaram exatamente o remédio que agravou o mal: destruição de empresas e empregos e desestruturação das instituições nacionais, em particular a demonização da política. A perseguição seletiva e sem tréguas, fruto do diagnóstico errado, aos que facilitaram a "ascensão social dos miseráveis e pobres em geral", identificando-os como corruptos e organização criminosa, "equivale a tornar suspeita a própria demanda por igualdade" (10). Não bastaram o diagnóstico errado e a medicação equivocada, foi preciso desacreditar o medicamento mais indicado para a moléstia brasileira.

Também na obra de Machado, o grito mais candente é a denúncia da profunda divisão naquela sociedade escravocrata, a desigualdade social e o desprezo pelos mais pobres. A corrupção é o pano de fundo que embrulha a elite e seus apaniguados.

Brás Cubas integrava a elite social. Ao morrer, possuía um patrimônio de "cerca de trezentos contos”. No seu livro “1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil“, Laurentino Gomes afirma que 250 mil réis equivaleria hoje a 14 mil reais. Um conto de réis é o mesmo que um milhão de réis, quatro vezes o valor do exemplo, portanto, 56 mil reais. Os 300 contos de Brás Cubas estariam na casa dos 17 milhões de reais. Mesmo que essa conversão não seja pacífica (11), vale como referência sobre a equivalência do patrimônio, hoje compatível com a classe média alta, que se perfila segundo os interesses dominantes.

Brás Cubas era moço abastado que vivia de renda e negava a origem da fortuna no trabalho do fundador da família. Machado e sua contundência na denúncia das hipocrisias sociais, revela, pelo narrador, que Damião Cubas era tanoeiro, aquele que produz tonéis e cubas. Lavrou, plantou, colheu e comercializou, deixando “grosso cabedal” a um filho, Luís Cubas que estudou em Coimbra - “neste rapaz é que verdadeiramente começa a série de meus avós”. Mais ainda, para não deixar dúvidas sobre o desprezo pelo trabalho braçal, o pai inventa uma história heroica para justificar o sobrenome: “escapou à tanoaria nas asas de um calembour” - um trocadilho, um jogo de palavras, pois o apelido seria um prêmio pela façanha de um ancestral que teria arrebatado “trezentas cubas aos mouros” em jornadas da África.

Brás Cubas não nega suas origens purificadas. A sua relação com os de baixo é sempre arrogante e revela um compromisso ideológico excludente e de desprezo. Sobre o almocreve (condutor de bestas de carga) que lhe salvou a vida, considera justo, inicialmente, entregar-lhe três das cinco moedas de ouro que trazia: “não porque tal fosse o preço da minha vida, — essa era inestimável; mas porque era uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou”.

Apesar de buscar uma “recompensa digna”, logo constrói um álibi ideológico para reduzir-lhe a dignidade à pura recompensa monetária, obviamente, a única medida de gratidão possível na sua maneira de ver o mundo. Acaba por meter-lhe “na mão um cruzado em prata”. Mesmo assim, arrepende-se, “examinei-lhe a roupa; era um pobre-diabo... Porque, enfim, ele não levou em mira nenhuma recompensa ou virtude [ao salvar-lhe a vida], cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos hábitos do ofício”. Cheio de remorsos confessa que o rapaz mereceria, no máximo, uns vinténs.

Eugênia, a dignidade coxa

Eugênia era coxa; “o pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio”.

Eugênia encantou o jovem Brás Cubas. Houve um interesse mútuo, “depressa nos familiarizamos”, sempre marcado pela diferença social, mascarada no defeito físico: Eugênia é filha bastarda e nasceu coxa – duas condições inalteráveis, como a condição social numa sociedade em que a mobilidade social dependia “de um capricho da classe dominante”. (12)

A contrapartida dessa “parte pobre” que “não é ninguém” e “tudo se resume na decisão da parte proprietária” (13), é a submissão. Mas Eugênia escapa ao figurino. Vendo-a passar a cavalo, “fez-me um cumprimento com a ponta do chicote. Confesso que me lisonjeei com a ideia de que, alguns passos adiante, ela voltaria a cabeça para trás; mas não voltou”.

E quando reencontra Eugênia no futuro, em “tamanha miséria”, desiste de dar-lhe uma esmola. A crueldade é reafirmada: “tão coxa como a deixara, e ainda mais triste”. Mesmo assim, “esta, ao reconhecer-me, ficou pálida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa de um capitalista”. Estender a mão a um pobre só para entrega-lhe “esmolas da minha algibeira”.

A referência a uma “esposa de um capitalista” seria a concessão limite, fora disso o descarte, a não ser como mão de obra indispensável, como a dos escravos e outros setores subalternos da sociedade.

“Neste sentido, penso não forçar a nota dizendo que Eugênia, entre outras figuras de tipo semelhante, encerra a generalidade da situação do homem livre e pobre no Brasil escravista” (14)

Essa altivez da moça incomodou Brás Cubas já no início: “senti um repelão dos nervos”. E Eugênia é humilhada, desprezada e ridicularizada. E Cubas aniquila toda e qualquer veleidade emocional sobre as qualidades da moça. O que fala mais alto é a relação de classe. O escárnio sobra até para o leitor de “alma sensível”, que supostamente está chorando diante de crueldade dedicada a Eugênia: “limpa os óculos, — que isso às vezes é dos óculos”. Essa alma sensível pode ser mesmo a sua: “no contexto da dominação de classe, os trunfos humanos dos inferiores são vistos como outros tantos infortúnios” (15).

“O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana”. A não-existência de eugênias, dignas e mesmo coxas, talvez chutasse para longe a tragédia humana e brasileira, com a construção de uma sociedade higienizada e elitista. Aliás, o que anos depois seria exatamente abordado no conceito de eugenia. (16)

O professor Earl Fitz, especialista em literatura brasileira, com destaque para Clarice Lispector e Machado de Assis, vê em Eugênia a oportunidade perdida pela elite brasileira, o “velho Brasil socialmente esclerótico”, que descartava a contribuição do “resto da nação, e mais particularmente [das] jovens mulheres brasileiras” para a construção de um projeto de país justo e desenvolvido (17).

Mais do que oportunidade perdida ao ser descartada, Eugênia precisava ser punida por manter-se íntegra diante da possível mão estendida pelo moço rico – mesmo que essa mão pudesse, depois, simplesmente ser recolhia. Produto daquela sociedade escravocrata, elitista e machista, Eugênia pagou um alto preço. Manteve-se assim, não só em “tamanha miséria”, mas sofreu um castigo maior: simplesmente foi condenada ao desaparecimento, como se sua ousadia merecesse uma punição eterna: “Nunca mais a vi; não soube nada da vida dela, nem se a mãe era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miséria”. Eugênia quedou-se perdida para sempre nas páginas não escritas das memórias de Brás Cubas.

Eugênia é a única figura estimável do livro: tem "compreensão nítida das relações sociais, gosto de viver e firmeza moral — mas seu papel é pouco mais que uma ponta”. (18) Pode-se dizer, também talvez sem “forçar a nota” que, no Brasil do sesquicentenário da morte de Brás Cubas, eugênias assumem um papel de ponta. Pode-se encontrá-las nos movimentos protagonizados pelas mulheres, que apresentam "compreensão nítida das relações sociais, gosto de viver e firmeza moral": o EleNão, a Marcha das Margaridas, as manifestações das mulheres indígenas, as Mães de Acari (19) e as Mães de Maio (20)

A herança escravocrata

Com Eugênia, Machado antecipa um processo que já estava em curso no país quando escreveu Memórias, mas que viria a se deslanchar somente com a chegada dos imigrantes brancos no início do século XX.

"A partir de 1850, quando o fluxo de entrada de escravos é estancado, através da lei Eusébio de Queirós, passa a existir no Brasil um tipo de escravismo tardio. Ele coexiste com as instituições fundamentais do capitalismo dependente, que vai substituí-lo e a sua ideologia e os seus interesses econômicos quase não se alteram. As formas de propriedade mais relevantes continuam praticamente inalteradas. O escravo, a partir de 1888, deixa de sê-lo para ser cidadão incorporado à grande franja marginal desse tipo de capitalismo" (21).

Comparando o início e fim do século XIX, a proporção de mulatos cresceu de 10% para 41% da população total. “Isso implica rápida miscigenação e casamentos inter-raciais e indica que a mobilidade social desse estrato era mais do que mera fantasia” (22). No entanto, o fim da colônia e da escravidão foram decorrências de um processo inevitável, mas sem mudanças significativas: “fizemos a Independência conservando a escravidão e fizemos a Abolição conservando o latifúndio” (23).

A chegada do imigrante branco trouxe mudanças decisivas. “Ser considerado branco era ser considerado útil ao esforço de modernização do país, daí a possibilidade de embranquecer, fechada em outros sistemas com outras características. Branco era (e continua sendo) antes um indicador da existência de uma série de atributos morais e culturais do que a cor da pele. Embranquecer significa, numa sociedade que se europeizava, compartilhar os valores dominantes dessa cultura, ser um suporte dela” (24).

Da mesma forma que se pode ser “branco” com pele negra, pode-se ser “negro” com pele branca. Eugênia não recebe tratamento diferente da escrava que se negou a dar-lhe uma colher de doce de coco: quebra-lhe a cabeça. Mesmo com seus seis anos, jogou cinza no tacho e ainda denunciou à mãe que a escrava estragara o doce “por pirraça”.

Prudêncio era o escravo que acompanhou Brás Cubas desde a infância, em quem montava como cavalo, com rédea e chicote. Mas até mesmo Prudêncio é tratado com simpatia quando reproduz o comportamento dominante: “Vejam as sutilezas do maroto!”; diz Brás Cubas quando flagra Prudêncio, liberto, dono de escravo, a quem trata com a mesma crueldade com que havia sido criado.

Poderíamos até falar de uma “Síndrome de Prudêncio” por parte de alguns dos trabalhadores apelidados de “nova classe média”, que abandonaram as condições de extrema pobreza nos governos anteriores ao golpe de 2016. Submetidos aos efeitos colaterais do tratamento indicado pela Lava Jato, enxergaram sua ascensão social como mérito exclusivo seu, uma conquista individual. Ao negar as políticas públicas que lhes permitiram exercer seu talento e esforço individual, excluíram a mesma possibilidade de ascensão a outros. Reproduziram, assim, a mesma crueldade com que eram tratados.

A narrativa

No sesquicentenário da morte física de Brás Cubas, assistimos à morte simbólica dos criadores do emplasto Lava Jato. Sergio Moro, Deltan Dallagnol e sua trupe purgam uma “morte” narrada em pílulas pelo The Intercept Brasil. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi, também, “entregue ao público feita aos pedaços na Revista Brasileira, pelos anos de 1880”.

Se não podemos falar da volubilidade machadiana (25), encontramos na obra lavajatense, no mínimo, uma duplicidade circular, realidade-ficção-ficção-realidade: o discurso oficial era uma ficção reificada; e a narrativa do The Intercept Brasil, traz uma realidade revelada em formato de capítulos de uma novela, não reconhecida pelos autores, mas não desmentida. Apresentada em capítulos, portanto, uma realidade fragmentada; para ser totalmente compreendida deve-se conhecer o seu todo. Realidade e ficção só não se confundem porque não estamos analisando uma produção artística, mas a revelação de uma torpe e cruel manipulação social.

E o The Intercept Brasil, ao revelar a conversa de procuradores e juiz, produz uma espécie de “Memórias Pútridas” da Lava Jato.

Os dois emplastros eram um embuste. A diferença essencial é a franqueza da personagem machadiana, possível porque, “senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados”. Pois, na morte, “a gente pode … despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser” pois “já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude”. O "famoso olho da opinião” ainda não era, à época de Machado, o da “opinião pública”, que tanto acalentou a megalomania do juiz e dos procuradores.

Ao deixar a neutralidade, própria da função que exercia, ao "despintar-se" da toga e assumir a indumentária de acusador no tribunal da opinião pública, o juiz assumiu os riscos de repetir a ficção e receber “em cheio um golpe de ar”. Adoeceu e não se tratou. “Tinha o emplasto no cérebro”, como ressaltou a personagem: “trazia comigo a ideia fixa dos doidos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e remontar ao céu, como uma águia imortal, e não é diante de tão excelso espetáculo que um homem pode sentir a dor que o punge ... tal foi a origem do mal que me trouxe à eternidade... foi minha invenção que me matou”.

“Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória”.

Esse “amor da glória” transparece, agora, nas revelações do The Intercept Brasil. E a situação não deixa de ser curiosa se avaliada do ponto de vista de Cubas. As conversas por meio do aplicativo Telegram davam ao juiz e aos procuradores uma blindagem como a do defunto autor. Não que estivessem “do outro lado da vida”, estavam num limbo, acima da sociedade. Inalcançáveis. Inatingíveis. Puderam  exercer plenamente o "desdém dos finados", acreditando que “já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia". Aliás, foram os próprios procuradores que, no auge do gozo desse poder, produziram uma foto que remetia a uma imagem clássica dos filmes dos Intocáveis, os agentes do Tesouro dos Estados Unidos que combateram Al Capone na década de 1930.

O mais interessante, no entanto, são as revelações das personagens da Lava Jato publicadas pelo The Intercept. Aqui tomo a liberdade de parafrasear trecho do professor Roberto Schwarz transcrito no início deste texto. “Sai de cena o narrador constrangido dos primeiros” tempos, “cujo decoro obedecia às precauções da posição subalterna” à Constituição, que apresentava o judiciário como um instrumento para a distribuição da justiça, “e entra a desenvoltura característica” da Lava Jato “cujo ingrediente de contravenção sistemática reproduz um dado estrutural da situação de nossa elite”, que já predominava na relação com a imensa maioria da sociedade, os herdeiros da dominação escravista, contemporânea de Brás Cubas: os negros, pobres e sem acesso à educação, que compõem, hoje, 41% da população carcerária e 71% das vítimas de homicídios no país.

O modus operandi da Lava Jato estendeu a setores da elite e a inimigos políticos prática já direcionada aos setores de baixo da estrutura social brasileira. É a democratização da injustiça ou a revelação de que a justiça tem seu caráter de classe e serve aos setores dominantes e pode mesmo ser instrumento para luta interna entre eles.

Para encerrar com uma fábula na obra-prima: o genial Machado também se traveste de Nostradamus para escrever uma profecia: um político de sobrenome Neves tinha o número 13 como “um algarismo fatídico”; e deixa de ocupar um cargo no governo por causa desse número. Uma profecia quando se confirma, transforma o seu autor, de especulador em profeta. E o Profeta do Cosme Velho foi cirúrgico: “assim, o fato particular da ojeriza de um número produziu o fenômeno da dissidência política". E o nome do Neves do passado é Lobo. O Neves de hoje, travestiu-se de cordeiro e só depois de ter causado muito mau, como é da natureza dos lobos, teve sua pele arrancada.

Entre 2 de junho e 1º de setembro de 1878, pouco antes de publicar o Memórias, Machado, assinando Eleazar, publicava no jornal “O Cruzeiro” crônicas intituladas “Notas Semanais”: “poeira nos olhos” era a “regra máxima” de um tempo que vivia “menos da realidade que da opinião”. E também referiu-se à “ficção pactuada na sociedade, debochando, entre outras coisas, das pretensões científicas – tão em voga naquele final de século – de observar o mundo de forma totalmente neutra e objetiva” (26).

Pois a poeira nos olhos foi a regra máxima de uma ficção pactuada de nome Lava Jato, sob uma capa, ainda em voga neste século, de objetividade e neutralidade, que tratava menos da realidade do que da opinião, ou, melhor, acalentava ideias fixas que se transformaram em convicções.

“Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”.

Mário Simões

Notas

1 — O objetivo foi identificar a sexta-feira de agosto de 1869 que choveu e assim “determinar” o dia da morte de Brás Cubas. No entanto, os dados não existem. O máximo disponível são as médias mensais. Mesmo assim, o instituto do Rio de Janeiro que dispõe da informação não a divulga como “dados oficiais”, pois a fonte original é desconhecida: “podem ter sido coletadas em jornais da época”. No entanto, foram registradas aqui somente como referência e curiosidade. No período (1851-1889), o agosto de 1872 foi o que registrou mais intensidade, com 455mm de precipitação. O ano do lançamento da obra, 1881, esteve também abaixo da média, 30mm.

2 — Roberto Schwarz no seu consagrado Machado de Assis - Um mestre na periferia do capitalismo, publicado em 1990.

3 — Roberto Schwarz.

4 — Roberto Schwarz.

5 — Roberto Schwarz.

6 — Carlos Drummond de Andrade, A um Bruxo com amor.

7 — Roberto Schwarz.

8— Jessé Souza, A Elite do Atraso – da Escravidão à Lava Jato. “Troca-se a corrupção real, que retira as chances de vida de centenas de milhões, para se culpar a ‘corrupção dos tolos’, a da propina dos políticos, que é obviamente nefasta, mas que equivale a dos aviõezinhos do tráfico de drogas” (226) A corrupção real praticada por uma elite, que está no mercado e “se apropria do aparelho de Estado e usa o poder de Estado de modo a assegurar a perpetuação de seus privilégios”. (197)

9 — Citado por Teresinha Gema Lins Brandão Chaves e Mariana Lins e Chaves in Memórias póstumas de Brás Cubas: do phármakon à escrita, o jogo, a verdade (Disponível aqui - acessado em 24/08/2019)

10 — Jessé Souza, A Elite do Atraso.

11 —A nossa moeda experimentou uma enorme variação na primeira parte dos anos 1800, “somente na segunda metade do século que se conseguirá uma relativa estabilidade”, conforme Caio Prado Júnior, História Econômica do Brasil.

12 — Roberto Schwarz.

13 — Roberto Schwarz.

14 — Roberto Schwarz.

15 — Roberto Schwarz.

16 — O conceito de eugenia somente foi cunhado por Sir Francis Galton — primo de Charles Darwin — em 1883, portanto, após a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas. No entanto, o professor Earl Fitz discute o tema considerando que naquela data o conceito já estava em construção e que Machado poderia tê-lo usado em outro contexto. Veja o texto de Kathryn Sanchez citado na nota 13.

17 — Kathryn Sanchez, “Coxa de nascença”: Misconceptions, normalcy and the aesthetics of difference in Memórias Póstumas de Brás Cubas by Machado de Assis - “Coxa de nascença”: mal-entendidos, normalidade e a estética da diferença em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. (Disponível aqui, em inglês - acessado em 24/08/2019).

18 — Roberto Schwarz.

19 — Na noite de 26 de julho de 1990, três garotas menores de idade e oito rapazes (sendo cinco também menores) estavam em um sítio em Suruí, município de Magé (RJ), quando homens encapuzados, identificados como policiais, os levaram de lá. Seus corpos nunca mais foram encontrados, a não ser a Kombi de um deles, abandonada nas proximidades. Três anos após a Chacina, em 15 de janeiro de 1993, foi também assassinada Edmea da Silva Euzébio, uma das Mães de Acari.

20 — Veja o documentário Não Saia Hoje.

21 — Clóvis Moura, Rebeliões da Senzala, Quilombos, Insurreições e Guerrilhas.

22 — Jessé Souza, A elite do atraso, da escravidão à Lava Jato.

23 — Clóvis Moura.

24 — Jessé Souza.

25 — Roberto Schwarz.

26 — Ana Flávia Cernic Ramos, Das batalhas literárias e sociais surge o “método”: escravidão, trabalho livre e imigração nas crônicas de Machado de Assis (1878-1883), Machado de Assis em Linha (Disponível aqui - acessado em 24/08/2019)"

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2019 18:48
Mais nesta categoria: « O outro lado de Steve Jobs

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.