Sexta, 07 Abril 2017 19:21

Palestina, a expulsão de 1948 revisitada

Sobre a criação do Estado de Israel: “Somente alguns admitiram que a história do retorno, da redenção e da libertação de seus pais foi uma história de conquista, de expulsão, de opressão e morte”

No texto a seguir, publicado na revista Manière de Voir, Dominique Vidal resgata o trabalho dos "novos historiadores" israelenses, que permitiu reescrever a história da guerra de 1948 entre árabes e judeus.

Há 20 anos, os “novos historiadores" israelenses começaram a reescrever a história da guerra de 1948, e especialmente o êxodo palestino. Retornamos a esse trabalho iconoclasta, em grande parte confirmado depois ...

“Somente alguns admitiram que a história do retorno, da redenção e da libertação de seus pais foi uma história de conquista, de expulsão, de opressão e morte”. Yaron Ezrachi, Rubber Bullets.

No período entre o plano de divisão da Palestina adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 29 de novembro de 1947, e o armistício de 1949, consequência da primeira guerra árabe-israelense deflagrada pela invasão de 15 de maio de 1948, muitas centenas de milhares de palestinos que viviam nos territórios finalmente ocupados por Israel tiveram que deixar suas casas1.

Para os historiadores palestinos e árabes, o que houve de verdade – eles afirmam sempre – foi uma expulsão. A imensa maioria dos refugiados (estimados entre 700 mil e 900 mil), afirmam eles, foram constrangidos durante os enfrentamentos entre israelenses e palestinos, durante a guerra árabe-israelense, no contexto de um plano político-militar de expulsão marcado por numerosos massacres. Essa é, especialmente, a tese defendida, em 1961, por Walik Khalidi em sua obra “Plano Dalet(nt1): Plano Mestre para a conquista da Palestina”2, e mais recentemente por Elias Sanber, em “Palestina 1948, a expulsão”3.

Fuga Voluntária

Segundo a historiografia israelense tradicional, ao contrário, os refugiados (500 mil no máximo), em sua maior parte, fugiram voluntariamente respondendo aos apelos dos dirigentes que lhes prometeram um retorno rápido após a vitória. Nem os responsáveis pela Agência Judaica(nt2), nem o governo israelense haviam planejado o despejo. E os raros e deploráveis massacres – em primeiro lugar aquele de Deir Yassin(nt3), em 9 de abril de 1948 – foram executados por tropas extremistas afiliadas ao Irgoun, de Menahem Begin, e ao Lehi, de Itzhak Shamir.

Na década de 1950, no entanto, algumas personalidades israelenses ligadas ao movimento comunista e até mesmo alguns círculos da esquerda sionista (incluindo o partido Mapam), contestaram essa versão. Desde meados dos anos 1980, eles passaram a ser apoiados em suas críticas por um certo número de pesquisadores que se definem como "novos historiadores": Simha Flapn, Tom Segev, Avi Schlaïm, Ilan Pappé e Benny Morris. É este último, com The Birth of the Palestinian Refugee Problem Revisited (A origem dos refugiados palestinos, revisão do problema ), que deu o sinal do escândalo4. Porque, além de suas diferenças de método, de propósito e opinião, o que une esses pesquisadores é que eles atacam os mitos da história de Israel e revêem, em especial os eventos da primeira guerra árabe-israelense, ajudando a restaurar a verdade sobre o êxodo dos palestinos – pelo menos parcialmente, como veremos. O suficiente, de qualquer maneira, para atrair a ira dos historiadores ortodoxos5.

Dois fenômenos se conjugam para estimular esses pesquisadores. Primeiro, a abertura dos arquivos israelenses, públicos e privados. Por outro lado, os pesquisadores parecem ignorar quase inteiramente os aquivos dos Estados árabes – que são de fato pouco acessíveis -, bem como a memória oral dos palestinos, que outros, no entanto, buscam coletar. Ou, como nota a justo título o historiador palestino Nur Masalha, “a história e a historiografia não devem necessariamente ser escritas, exclusivamente ou essencialmente, pelos vencedores6.

Manipulação da História

Ruína, em Suba

Mas o mergulho nos arquivos israelenses não poderia ter sido tão bem sucedido se os 10 anos após a sua oferta não tivessem sido marcados pela invasão do Líbano, em 1982, e pelo desencadear da intifada, em 1987, o que acentua, mesmo em Israel, a divisão entre o campo nacionalista e o campo da paz. Logo, os “novos historiadores” destacam a origem do problema palestino ao mesmo tempo em que ele sobressai em primeiro plano.

Um dos pioneiros dessa “nova história”, Ilan Pappé, destacou o papel do diálogo entre Israel e a Palestina realizado naquela época, “essencialmente realizado, precisa ele, sob a orientação da universidade. Por mais surpreendente que possa parecer, é graças a esse diálogo que a maioria dos pesquisadores israelenses, trabalhando na história do seu país e não estando associados a políticos radicais, ficaram conhecendo a versão dos historiadores palestinos. [Eles] tomaram consciência da contradição fundamental entre as ambições nacionais sionistas e sua implementação às custas da população palestina7.

Ressaltando, que a manipulação histórica com fins políticos não é, evidentemente, uma exclusividade israelense: ela está, na maioria das vezes, associada ao nacionalismo.

Quais lições os “novos historiadores” tiraram de seu contato frequente com os arquivos? Relatando, em geral, um equilíbrio de forças que prevaleceu em 1947 como em 1948 entre judeus e árabes, eles contradizem as imagens que apresentavam uma frágil comunidade judia da Palestina, desarmada, ameaçada de extermínio por um mundo árabe unido e bem armado – Davi frente a Golias. Ao contrário, os “novos historiadores” concordam, particularmente, em valorizar as muitas vantagens do Estado judeu em formação frente a seus inimigos: a decomposição da sociedade palestina, as divisões do mundo árabe e a inferioridade de suas forças armadas – em número, em treinamento e em armamentos –, a vantagem estratégica para Israel que significou o acordo com o Emir Abdullah, da Transjordânia (que se comprometeu a não atacar o território alocado pela ONU para Israel em troca da Cisjordânia), o apoio da Grã-Bretanha a esse compromisso assim como o suporte conjunto dos Estados Unidos e da União Soviética, a simpatia de opinião pública mundial, etc.

Duas grandes ondas

Vem dai, entre outros, a caraterística frequentemente devastadora das ofensivas judias na primavera de 1948. É assim que se lança uma nova luz sobre o contexto da fuga em massa dos palestinos. Eles saem, de fato, em duas grandes ondas de dimensão sensivelmente iguais: antes e depois da mudança decisiva que representou a declaração de independência do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, e da intervenção dos exércitos dos Estados árabes, vizinhos, no dia seguinte. Se durante as primeiras semanas que se seguiram à adoção do plano de divisão da Palestina não há dúvida que prevaleceu o carácter voluntário da fuga de milhares de palestinos – notadamente em Haïfa e Jaffa – o que ocorreu a seguir? Nas primeira páginas do The Birth of the Palestinian Refugge Problem, Benny Morris propõe uma resposta global: sobre um mapa situando as 369 cidades e vilas árabes de Israel (segundo as fronteiras de 1949), ele resume, localidade por localidade, as causas da partida de sua população8. Em 45 casos, o autor admitiu seu desconhecimento. Os habitantes de 228 outras aldeias e cidades partiram durante os ataques de tropas judias, dos quais, 41 casos de expulsão a manu militari. Nas 90 outras localidades os palestinos cederam ao pânico depois da queda de cidades ou vilas vizinhas, do pavor de um ataque inimigo ou ainda da campanha de terror orquestrada pelo exército judeu – particularmente após o massacre, a 9 de abril de 1948, de 125 habitantes de Deir Yassin, cuja notícia se espalhou como um rastilho de pólvora por todo o país.

Por outro lado, ele identifica apenas 6 casos de fuga por injunção de autoridades árabes locais. “Não existe prova atestando que os Estados árabes e o Alto Comitê Árabe (HCA, palestino) pretendiam um êxodo em massa, ou que eles publicaram um diretriz geral ou apelos convidando os palestinos a abandonarem suas casas por se mesmos. Em certas zonas, os habitantes de vilas específicas receberam de comandantes árabes ou do HCA a ordem de partir, essencialmente por razões estratégicas” (The Birth …, p.129). Ao contrário, os fugitivos foram ameaçados de “punição severa”. Quanto às famosas exortações à fuga que teriam difundido as rádios árabes, a oitiva dos programas gravados demonstra que foram registros simplesmente inventados para fins de propaganda.

Em 1948 and After, Benny Morris analisa mais detalhadamente, se referindo à primeira fase do êxodo, uma peça que ele julga essencialmente confiável: o relatório redigido pelos serviços de inteligência do exército israelense, datado de 30 de junho de 1948. Intitulado “A emigração dos árabes da Palestina no período de 1/12/1947 – 1/6/1948”, esse documento estima em 391 mil o número de palestinos que já haviam deixado o território em mãos israelenses e avalia a influência dos diferentes fatores que explicam sua partida: “ao menos 55% do total do êxodo foi causado por nossas operações”, escreveram os especialistas, que acrescentaram a essa porcentagem as operações dos dissidentes do Irgoun e do Lehi “que causaram diretamente cerca de 15% da imigração”. Com 2% atribuídos às ordens de expulsão explícitas dados por soldados judeus e 1% à guerra psicológica, nós chegamos a 73% de abandono da Palestina diretamente provocado pelos israelenses. Além disso, em 22% dos casos o relatório fala em “medo” e de “crise de confiança” da população palestina. Quanto aos apelos árabes para a fuga, eles não somam mais do 5% dos casos...

Curto, esse relatório, como resume o próprio Benny Morris, “mina a explicação israelense tradicional de uma fuga em massa sob as ordens ou incentivo das direções árabes”. Portanto, assinala o historiador, “não se confirma mais a explicação tradicional do êxodo árabe – os judeus de uma maneira premeditada, centralizada e sistemática, executaram uma campanha visando a expulsão completa da população palestina autóctone”. De qualquer forma, reconhece Benny Morris, para o segundo período – que ele avalia igualmente entre 300 mil e 400 mil pessoas - “é uma outra história”. Emblemática dessa etapa aparece a expulsão dos árabes de Lydda (atual Lod) e de Ramalá (250 mortes de prisioneiros desarmados), seguida da evacuação forçada, acompanhada de execuções sumárias e de pilhagens, de cerca de 700 mil civis palestinos – perto de 10% do êxodo total de 1947-1949! Cenários semelhantes serão criados – demonstra Benny Morris – na Galileia central, no norte de Néguev e na Galileia do Norte, sem esquecer a expulsão, posterior à guerra, dos palestinos de Al Majdal (Ashkelon). Muitas operações foram pontuadas – exceto a última – de atrocidades, de modo que Aharon Zisling, encarregado da agricultura, dirá ao conselho de ministros em 17 de novembro de 1948: “eu não pude dormir à noite. O que está em curso fere minha alma, aquela de minha família e aquela de todos nós (…) Atualmente, os judeus também se comportam como os nazistas, e meu ser inteiro está abalado”9.

Ocupando "propriedades abandonadas"

O governo israelense desenvolve uma política inflexível para impedir “a todo preço” - segundo um termo utilizado pelo próprio David Ben Gurion – o retorno dos refugiados, o que, entretanto, a Assembleia Geral das Nações Unidas exigia desde dezembro de 1948. Suas aldeias, vilas e cidades foram destruídas ou ocupadas por imigrantes judeus, e suas terras repartidas entre os kibutz próximos. A lei sobre as “propriedades abandonadas” - destinadas a tornar possível a apropriação dos bens de todas as pessoas “ausentes” - “legaliza”, desde o mês de dezembro de 1948, esse confisco generalizado. Perto de 400 cidades árabes foram assim riscadas do mapa ou judaizadas, o mesmo que aconteceu com os bairros árabes das cidades mistas. E, segundo um balanço de 1952, Israel meteu a mão em 73 mil habitações abandonadas, sobre 78 mil lojas, ateliês e entrepostos, em 5 milhões de libras palestinas em contas bancárias e, sobretudo, 300 mil hectares de terras10.

Em "1948 and After ..." (capítulo 4), Benny Morris se detém mais longamente sobre o papel desempenhado nesse contexto por Yosef Wietz, então diretor do departamento fundiário do Fundo Nacional Judeu. Em seu jornal, na data de 20 de dezembro de 1940, esse sionista de fortes convicções revelou sem restrições: "deve ficar claro que não há espaço para dois povos neste pais (...), e a solução é uma só, é a terra de Israel, pelo menos a parte ocidental da terra de Israel, sem árabes. Não há compromisso possível sobre esse ponto! (...) Não há outra maneira que não seja transferir os árabes daqui para os países vizinhos. (...) Nem uma cidade deve restar, nem uma tribo de beduínos."

Sete anos mais tarde, Yosef Weitz poderá aplicar, ele mesmo, esse programa radical. Em janeiro de 1948, ele organiza, aqui e ali, a expulsão dos palestinos. Em abril, ele exige e obtém a constituição de "um organismo que dirige a guerra que tem por objetivo despejar o máximo possível de árabes". informal até o final de agosto de 1948, depois oficial, o "Comitê de Transferência" supervisionou a destruição de aldeias árabes abandonadas ou/e seu repovoamento por novos imigrantes judeus para impedir o retorno dos refugiados.

Essa batalha por barrar a rota de retorno dos exilados palestinos, Israel colocou em prática também na frente diplomática. Desse ponto de vista, como registra Henry Laurens em uma apresentação dos "novos historiadores"11, "a abertura e exploração dos arquivos permitiram reelaborar certos julgamentos. Contrariamente a um clichê generalizado, os responsáveis árabes estão dispostos a negociar". Depois da guerra, durante a conferência de Lousane, as lideranças árabes tentaram, de fato, conduzir - Ilan Pappé expõe em detalhes esses esforços12 - a um acordo baseado na aceitação do plano de divisão da Palestina aprovado pela ONU em torca da aceitação, por Israel, do retorno dos refugiados. Apesar das pressões internacionais, a começar pelos Estados Unidos, essa tentativa se choca com a intransigência das autoridades israelenses, sobretudo após a adesão do Estado Judeu às Nações Unidas.

Apesar desse extraordinário acúmulo de provas, Benny Morris, em seu primeiro livro, se prende a uma tese: "o problema palestino surgiu da guerra e não de uma intenção, judia ou árabe” (The Birth … p. 286). Uma tese que, no entanto, ele explicita, contudo, em um segundo livro, reconhecendo que o êxodo dos palestinos constitui-se de "um processo cumulativo, de causas emaranhadas, mas houve um importante gatilho, um golpe decisivo na forma de agressão da Haganah, do Irgoun e das forças de defesa de Israel em cada cidade" (1948 ...p.32) Essa evolução não o impede de continuar a recusar toda ideia de um plano de expulsão judia e a desculpar David Ben Gurion, presidente da Agência Judia, depois primeiro ministro e ministro da pasta da defesa do jovem Estado de Israel.

Como esclareceu Norman G. Finkelstein, em um texto tão brilhante quanto polêmico13, essa negação dupla de Benny Morris parece, à primeira vista, contradizer .. o próprio Benny Morris. Finkelstein garante, citando o próprio Morris, que a "essência" do Plano Dalet (D, em hebreu), iniciado a partir do final de janeiro de 1948 e efetivamente aplicado a partir do final de março, era "limpar de todas as forças hostis e potencialmente hostis o provável território do Estado judeu, estabelecer uma continuidade territorial entre as principais concentrações de população judia e garantir a segurança das futuras fronteiras antes da esperada invasão árabe” (The Birth... p. 62). Será que ele não reconhece que esse Plano D, sem dar um cheque em branco à expulsão de civis, representava, contudo, “uma base estratégico-ideológica para a expulsão pelos comandantes de frente, de distritos, de brigadas e de batalhão”, aos quais ele deu “post facto uma cobertura formal e convincente para explicar suas ações?” (p.63) Benny Morris chegou a afirmar, em duas páginas próximas, que, de uma parte, “o Plano D não era um plano político de expulsão dos árabes da Palestina”, e de outra parte que, “a partir do início de abril, passaram a existir traços de uma política de expulsão em nível nacional e em nível local” (The Birth …, p. 62 e p. 64) …

Morris trata da mesma maneira a responsabilidade de David Ben Gurion. Benny Morris nota claramente que o primeiro ministro é o pai do Plano Dalet. Em julho de 1948, foi ele ainda que ordenou a operação de Lydda e Ramalá: “expulse-os!”, respondeu a Igal Allon e a Itzhak Rabin – mantido em segredo nas suas memórias, mas revelado, 30 anos mais tarde, no New York Times14. A ordem, precisa Morris, não foi objeto de debate no interior do governo israelense. Alguns dias antes, é verdade, o Mapam, parceiro do Mapaï, no poder, obteve do primeiro ministro uma instrução oficial impedindo os militares de todas as medidas de expulsão... David Ben Gurion, pouco depois, irá zombar da hipocrisia desse partido sionista-marxista que denuncia “atividades” que seus próprios militantes, militares do Palmah nos Kibutz, executam.

Ben Gurion:"o que eles fazem aqui?"

O fato é que, em Nazaré, o general Haïm Laskov, levou ao pé da letra a instrução oficial. E o “velho” (Ben Gurion), desembarcando na cidade, ao descobrir a população de árabes restante perde a paciência: “o que eles fazem aqui?15” Ainda em julho, dessa vez em Haïfa, David Ben Gurion inspira quase clandestinamente a operação de “deslocamento” de 3.500 árabes restantes na cidade. O próprio Benny Morris destacou: o poder, àquela época, era David Ben Gurion. Era com ele que tudo se decidia, tanto no plano militar quanto na vida civil, e muito frequentemente sem nenhuma consulta ao governo, muito menos a partidos e seus representantes. Nessas condições, a ausência, nos arquivos, de um decisão formal de expulsão dos palestinos se explica: “Ben Gurion, admite o próprio Benny Morris, sempre se absteve de emitir ordens de expulsão claras ou escritas; ele preferia que seus generais 'compreendessem' o que ele desejava que fizessem. Ben Gurion pretendia evitar que entrasse para a história na condição de grande responsável pela expulsão dos palestinos” (The Birth … pp.292-293).

Que o fundador do Estado de Israel, com base na extensão impressionante de seu poder, trabalhou para ampliar ao máximo o território destinado pelas Nações Unidas ao Estado judeu e para reduzir ao mínimo a população árabe não há nenhuma dúvida. Não foi o próprio Benny Morris que dedicou um importante estudo sobre o apoio, de longa data, que Ben David Gurion deu à transferência?16 “Desde 1937, escreveu Benny Morris em seu prefácio a 1948 and After, nós encontramos Ben Gurion (e a maior parte dos dirigentes sionistas) favoráveis a uma solução do “problema árabe” pela “transferência”. (…). Com a chegado de 1948, com as confusões e os acontecimentos da guerra, nos vimos Ben Gurion, rapidamente aproveitar a ocasião para “judaizar” o nascente Estado judeu” (1948 … p.33).

E o historiador revela mais acima: “a tendência dos comandantes militares locais foi aumentar a pressão para induzir os palestinos à fuga na mesma medida do avanço da guerra. As atrocidades judaicas contribuíram, sim, de maneira decisiva para o êxodo. E essas atrocidades foram muito mais disseminadas do que as velhas histórias contam: houve massacres de árabes em Ad Dawayima, Eilaboun, Jish, Safsaf, Madj al Kurum, Hule (no Líbano), Saliha e Sasa, e mais em Deir Yassin, Lydda e outros lugares (1948... p.22).

O próprio texto do Plano D não deixa, a bem da verdade, sombra de dúvida sobre as intenções de David Ben Gurion e de seus amigos. O texto prevê “operações contra os centros de população inimiga situados no interior de nosso sistema de defesa ou nas suas proximidades, afim de impedir que sejam utilizados por uma força armada ativa. Essas operações podem ser executados das seguintes maneiras: ou bem destruindo as aldeias (colocando fogo, dinamitando e depositando minas em seus destroços) e, especialmente, nos casos de centros de população difíceis de controlar; ou organizar operações de pente-fino e controle de acordo com as seguintes diretrizes: cerco às vilas e investigação em seu interior. Em caso de resistência, a forca armada deve ser destruída e a população expulsa para fora das fronteiras do Estado” (The Making …, p92).

É importante sublinhar a coragem que constatamos nos “novos historiadores” israelenses, com seus avanços e apesar de suas limitações. Por que não foi sobre uma página da história, entre outras, que eles contribuíram para restabelecer a verdade. O que foi realmente desnudaram é o “pecado original” de Israel, para retomar a fórmula do historiador ortodoxo Shabtai Teveth. O direito dos sobreviventes do genocídio nazista de viver em segurança em um Estado deveria excluir o direito das filhas e filhos da Palestina de viver, eles também, em paz dentro de seu Estado?

Texto de Dominique Vidal, publicado na revista Manière de Voir, uma publicação bimestral do jornal Le Monde Diplomatique, em sua edição nº 82, de agosto/setembro de 2005, com o tema Páginas Ocultas da História.

1 – Este artigo retoma a análise de “Pecado Original de Israel”, Edição de Atelier, Paris, 1998.

2 – In Middle Eat Forum, novembro de 1961, republicado com um novo comentário pelo Journal of Palestine Studies, Beirute, vol. XVIII, nº 69, 1988.

3 – Elias Xanber, in Palestine, 1948, A L'expulsion, Le Livre de la Revue d'études palestiniennes, Paris, 1984.

4 – Seus livros mais importantes são: Simha Flapan, The Birth of Israel: Myth and Realities, Pantheon Books, New York, 1987; Tom Segev, 1949, The First Israelis, Free Press Macmillan, New York e Londres, 1986; Avi Schlaïm. Collusion Across the Jordan: King Abdallah, the Zionist Movement and the Partition of Palestine, Clarendon Press, Oxford, 1988; Ilan Pappé, Britain and the Arab-Israeli Conflict, 1948-1951; Macmillan, Ne York, 1988, e The Making of the Arab-Israeli Conflict, 1947-1951, I.B Tauris, Londres, 1992, e Benny Morris, The Birth of the Palestinian Refugee Problem, 1947-1949, Cambridge University Press, Cambridge, 1987, e 1948 and After: Israel and the Palestinians, Clarendon Press, Oxford, 1990.

5 – Ver especialmente Shabtai Teveth, “The Palestinian Refugee Problem and its Origins”, Middle Eastern Studies, vol. Nº 2, 1990, e Rphraim Karsk, Fabricating Israeli History: The “New Historians”, Frank Cass, Londres, 1997.

6 – Nur Masalha, “'948 and After' Revisited”, Journal of Palestine Studies, nº 96, vol. XXIV, nº 4, verão de 1995.

7 – Ilan Pappé, “La critique post-sioniste em Israël, nº 12, verão de 1997.

8 – “The Birth ...” op. Cit. Páginas XIV a XVIII. Uma comparação atenta do texto do livro das tabelas, em que se indica, vila por vila, a causa maior do êxodo, revela também uma clara – e surpreendente – subestimação, nos quadros, das expulsão propriamente dita.

9 – Tom Segev, op. Cit., p.26.

10 – Citado por Simha Flapan, op. Cit. p. 107.

11 – Henry Laurens, “Trabalho recentes sobre a história do primeiro conflito iraelo-árabe”, Maghreb-Machrek, Paris, nº 132, abril-junho 1991.

12 – The Making..., op. Cit. Capítulo 8 a 10. Ver também Jean-Yves Ollier, “1949: la conférence de Lausanne ou les limite du refus arabe” (1949: a conferência de Lousane ou os limites da recusa árabe), Revue d'études palestiniennes, nº 35, printemps 1990.

13 – Norman G. Finkelstein, Image and Reality of the Israel-Palestine Conflict, Verso, Londres e New York, 1995, Capítulo 3.

14 – The New York Times, 23 de outubro de 1979.

15 – História de Michel Bar-Zohar, a biografia de Ben Gurion, reproduzida no jornal israelense Hadashot, Telavive, 19 de outubro de 1986.

16 – Benny Morris, “Comentários sobre a historiografia sionista da ideia de uma transferência da população da Palestina no anos de 1937-1944”, in “Les noveaux enjeux de l'historiographie israélienne”, editada por Florence Heymann, Letre d'information du Centre de recherche français de Jérusalem, nº 12, dezembro de 1995. Sobre as contradições do Mapam, ver o primeiro capítulo de 1948 and After.

(nt1) -Plano Dalet ou Plano D foi elaborado pelo Haganah, grupo paramilitar judeu que foi a base principal do Mossad (política política e de inteligência de Israel) e das Forças de Defesa de Israel.

(nt2) - A Agência Judaica, oficialmente Agência Judaica para a Terra de Israel, também conhecida apenas como Sochnut, foi a organização que serviu como autoridade para a comunidade judaica na Palestina antes da fundação do Estado de Israel. Serviu de interlocutor com os ingleses e se tornou posteriormente a responsável pela recepção dos imigrantes e pela absorção dos judeus. O seu principal líder foi Ben Gurion, primeiro chefe de governo de Israel.

(nt3) - O massacre de Deir Yassin aconteceu no dia 9 de abril de 1948, quando cerca de 120 combatentes dos grupos paramilitares Irgoun e Lehi atacaram a aldeia árabe de Deir Yassin, uma vila habitada por cerca de 400 pessoas e situada a 800 metros acima do nível do Mar Mediterrâneo, com vista para o principal acesso à cidade de Jerusalém, distante cinco quilômetros. A invasão de Deir Yassin ocorreu quando os milicianos judeus buscavam aliviar o bloqueio da cidade de Jerusalém, durante a guerra árabe-israelense de 1948. Segundo a Cruz Vermelha, 107 moradores teriam sido mortos durante e depois da batalha pela vila. Alguns foram baleados, enquanto outros morreram quando granadas de mão foram jogadas em suas casas. Do lado oposto, quatro atacantes foram mortos e cerca de 35 feridos. Irgoun (ou Irgun), Lehi (dissidência do Irgoun) foram grupos ligados a dois futuros primeiros ministros de Israel, respectivamente Menahem Begin e Itzhak Shamir. O Lehi (Lohamei Herut Israel, Lutadores para a Liberdade de Israel) foi um grupo armado sionista que operava clandestinamente no Mandato Britânico da Palestina entre 1940 e 1948. Seu principal objetivo era expulsar os britânicos da Palestina para permitir a livre imigração de judeus para a região e criar um Estado judaico (Israel). Irgoun foi uma dissidência do Haganah.

Em tradução livre.

Última modificação em Sexta, 07 Abril 2017 19:27

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.