Sexta, 07 Abril 2017 09:42

A Hebraica, Bolsonaro e Israel

Muito se tem falado e escrito sobre a presença do deputado Jair Bolsonaro na Hebraica Rio. Os discursos sempre ressaltam a estupefação de se ver um nazifascista na casa do judeu, numa referência nítida ao holocausto e à política de extermínio de judeus patrocinada pelo regime nazista, que encontra sintonia no discurso racista do parlamentar, aliás, repetido para a plateia da Hebraica. 

Além das barbaridades expelidas por Bolsonaro, a imagem que se sobressai no palco da Hebraica é da bandeira de Israel. E, assim, o quadro de contradição deixa de existir. Pois o discurso misógino, racista, discriminador e pró-violência de Bolsonaro corresponde à prática patrocinada pelo Estado de Israel contra os palestinos no território ocupado no Oriente Médio.

Aliás, Bolsonoro esteve em Israel, ou melhor, toda a família esteve em Israel tecendo loas e vivas à política de ocupação da Palestina.

Essa trajetória, no entanto, não é uma particularidade de Bolsonaro. No mundo inteiro, a extrema direita ama o Estado de Israel.

Norbert Hofer, do Partido da Liberdade na ÁustriaNorbert Hofer, do Partido da Liberdade na Áustria, que “foi criado por um grupo de ex-nazistas nos anos 50”, peregrinou em 2014 até Jerusalém, depositando uma coroa de flores no monumento à memória do Holocausto de Yad Vashem. Hofer, escreveu o jornalista Glenn Greenwald em matéria do The Intercept em 30 de novembro de 2016, divulgou sua viagem a Israel em sua campanha. “Eles são um dos partidos que mais apoiam Israel na Europa”, disse o ex-membro do parlamento de Israel, Michael Kleiner.

Bolsonaro também esteve com o presidente do Parlamento Israelense, Yuli-Yoel Edelstein. Em vídeo, Bolsonaro afirma ao presidente do parlamento que “vocês são exemplo para o mundo. Assim como vocês sofrem com as inverdades que acontecem com a Palestina nós no Brasil também sofremos” e conclui, no vídeo, citando a Bíblia: “a verdade é a nossa maior bandeira no Brasil”.

Família Bolsonaro também foi batizada no Rio Jordão:“oportunidade ímpar de aprendizado e vivência do que a história relata, afinal somos Cristão (sic)”.

Glenn Greenwald ainda ressalta: “a mesma dinâmica é observada de forma ainda mais impressionante na França, onde o partido de Marine Le Pen, Frente Nacional — fundado por seu pai, que minimiza a gravidade do Holocausto, e repleto de simpatizantes do Nazismo — expulsou antissemitas de seus quadros e declarou firme apoio a Israel”.

Bolsonaro na HebraicaA matéria de Glenn Greenwald traz outros exemplos da proximidade da extrema direita simpática ao nazismo e mesmo a Hitler com Israel.

Um texto do jornal Le Monde, de janeiro de 2016, disponível em português no site da Folha de S. Paulo, mostra que Israel tem todos os ingredientes para que Bolsonaro se sentisse em casa quando visitou o país. No “Israel ataca o terrorismo de judeus de extrema-direita” pode-se encontrar partidos de extrema-direita como, por exemplo, o ultranacionalista Bait Yehudi (Lar Judaico), que nas eleições legislativas de 2013, obteve 12 cadeiras no parlamento, tornando-se a terceira maior força no parlamento de 120 lugares.

A tortura, já defendida pelo deputado, também é pratica constante. No caso, os advogados dos jovens acusam o Shin Bet (serviço de segurança interno) de torturá-los. A prática foi usada para extrair a confissão de dois jovens judeus acusados pelo “incêndio criminoso da residência dos Dawabsha, uma família palestina do vilarejo de Duma, na Cisjordânia, no dia 31 de julho de 2015. Ali, um bebê de 18 meses morreu e seus pais também, em decorrência dos ferimentos”.

O tema provocou viva discussão na sociedade, após a denúncia dos advogados. Naftali Bennett, então ministro da Educação e liderança do Lar Judaico, manifestou apoio ao Shin Bet. “O que foi feito aos detentos de Duma certamente não foi mais, e provavelmente menos, do que aquilo que se costuma fazer aos palestinos suspeitos de terrorismo”.

E a misoginia, tão cara a Bolsonora, também não está ausente no governo do primeiro ministro Benyamin Nétanyahou. Seu “ministro da Defesa, Avigdor Lieberman (líder da extrema-direita laica) e seu colega, da Educação, Naftali Bennett (chefe da extrema-direita nacionalista e religiosa) trocam insultos publicamente a respeito da presença de mulheres nas forças armadas. O primeiro estima que elas têm o direito de exercer funções combatentes, o segundo, que devem restringir-se à cozinha e à maternidade e que, em todo caso, sua presença ao lado de combatentes cheios de testosterona podem distrair esses jovens de sua missão” conforme texto do jornal francês Libération.

E é também o The Intercept que registra outro artigo que trata a relação Hebraica-Bolsonoro-Israel de maneira diferenciada.

Shajar Goldwaser, escreveu neste 6 abril artigo intitulado “Jair Bolsonoro na Hebraica mostra o racha irreconciliável entre ser esquerda e sionista”.

E ressalta o que deveria ser a questão central do debate. Israel usa o judaísmo, é um Estado Judaico, mas o judaísmo não necessita de Israel. Ao contrário, a história de luta e resistência do povo judeu não deveria ficar vinculada ao sionismo, que levou à ocupação da Palestina, à expulsão de mais de 750 mil palestinos de suas casas, à destruição de 530 vilarejos, ao assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças. E continua até hoje a impedir a existência pacífica de dois Estados autônomos e independentes na Palestina.

O Estado de Israel reproduz, contra os palestinos, a mesma política racista e eugenética que o nazismo reservou aos judeus.

Goldwaser termina seu texto com a seguinte reflexão: “Talvez tenha chegado a hora de aposentar a bandeira azul e branca. Quem sabe, para atingir a verdadeira emancipação judaica, o que realmente precisamos é nos emancipar da narrativa sionista e de Israel”.

 

Última modificação em Sexta, 07 Abril 2017 19:11

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