Segunda, 03 Outubro 2016 00:02

Doria é o primeiro “Berlusconi” de Moro

A eleição em primeiro turno de João Doria para prefeito de São Paulo é uma derrota da esquerda, mas, principalmente um alerta sobre as eleições de 2018. A imagem de João Doria, vendida ao eleitor, é de um empresário “bem sucedido”, rico, “bom administrador”, com personalidade forte. Principalmente, um “não-político”. João Doria é o primeiro produto da Operação Lava Jato oferecido ao eleitor desacreditado nos partidos e na política tradicional. Doria é filho direto e dileto do juiz Sergio Fernando Moro, que posou a seu lado para foto que correu o país. É o primeiro “Berlusconi” de Moro.

A Operação Lava Jato inspirou-se na Mani Pulite (mãos limpas) italiana, conforme já escreveu o magistrado em 2004 no “Considerações sobre a Operação Mani Pulite”. Uma das maiores operações anticorrupção da história europeia, a Mani Pulite realizada nos anos 1990, contribuiu para desmantelar diversos esquemas de propina paga por empresas privadas para garantir contratos com estatais e órgãos públicos e também identificar o desvio de recursos para o financiamento de campanhas políticas. O mesmo objeto da Lava Jato, apesar de lá não atingir somente um partido.

Para o cientista político e professor da Universidade de Pisa, Alberto Vannucci, um dos maiores estudiosos da Mãos Limpas, a operação italiana acabou permitindo o surgimento de mecanismos mais sofisticados de corrupção no país. “A Mãos Limpas pode ser considerada uma conquista incrível em curto prazo, mas um fracasso em longo prazo”, disse à BBC.

“A percepção de corrupção generalizada alimenta a desconfiança da opinião pública em relação ao sistema político e aos partidos em geral e, com um sistema deslegitimado, é cada vez mais difícil para qualquer político, até os que apoiam os juízes, ser considerado honesto e confiável. Quando partidos ‘antigos’ italianos desapareceram ou passaram por mudanças drásticas, ‘novos’ partidos e líderes apareceram, como Silvio Berlusconi”.

A eleição de Berlusconi foi um dos principais produtos políticos da Operação Mani Pullite. Cantor, magnata dono de emissoras de TV, de empresas em diversos setores da economia e presidente do time de futebol Milan, Berlusconi tem uma vida conturbada por diversos escândalos. Era membro da loja maçônica P2, envolvida no processo da falência do Banco Ambrosiano, do Vaticano. É acusado de manter estreitas ligações com a máfia.

O Cavaleiro, como tornou-se conhecido, ficou nove anos no poder, em três mandatos seguidos, entre 1994 e 2011 ,o primeiro-ministro que mais tempo ficou no poder da Itália no pós-guerra. Uma personalidade controversa, com características fascistas, que apresentou-se como não-político e responde a um grande escândalo sexual, Rubygate, que envolve a remuneração dos serviços sexuais de uma menor de idade, a marroquina Karima El Mahrug, conhecida como Ruby, em dezembro de 2010. O escândalo alcançou grande publicidade na imprensa italiana, que divulgou dezenas de transcrições de conversas telefônicas entre várias jovens e os organizadores de festas com orgias nas residências de Berlusconi. Em março de 2015, o Supremo Tribunal italiano liberou Berlusconi, que não teria como saber se Ruby era menor de idade. Uma sentença polêmica que livrou a cara do todo poderoso empresário.

João Agripino da Costa Doria Junior ou somente João Doria Jr., também é empresário, publicitário, jornalista, político e apresentador de TV do reality show O Aprendiz. Como Berlusconi, ganhou projeção como o rico que não precisa roubar e que sabe administrar como empresário. Também como o italiano, aproveita-se do desgaste de partidos políticos e da forma tradicional de fazer política levada ao pelourinho pelas operações de caça à bruxas patrocinadas pela justiça. É candidato por um partido tradicional, o PSDB, mas que tem sido poupado das ações da Lava Jato, mesmo tendo grande número de membros citados nas delações premiadas. É candidato por um partido tradicionalíssimo, mas apresenta-se como novidade, que vai levar a “eficiência” da iniciativa privada para a gestão pública. Principalmente, apresenta-se negando a política.

“Decidi entrar na vida pública porque não quero viver num país não liberal, governado por pessoas que já falharam política e economicamente no passado”, anunciou Berlusconi no fim de 1993, numa comunicação que fez transmitir em todos os seus canais. Doria também é liberal: “eu defendo o Estado mínimo, e vou fazer isso. A Prefeitura vai vender tudo aquilo que não for essencial para a gestão pública e a assistência à população que mais precisa. Vamos começar vendendo o estádio do Pacaembu, o autódromo de Interlagos e o parque de convenções do Anhembi. Numa mostra clara e definitiva de que o Estado não pode e não deve estar onde ele não é necessário. Quem deve administrar estes locais é o setor privado”, disse ao jornal El Pais no dia 27 de dezembro de 2015. Na mesma entrevista ainda afirmou que “não é político e sim empresário, que vai doar o salário e não quer reeleição. Por ter um bom patrimônio, diz, não precisa se envolver com corrupção. Fala em gerir a capital paulista com mais eficiência, como uma empresa”.

Para o vice-presidente nacional do PSDB e ex-governador de São Paulo, Alberto Goldman, inimigo político de Doria dentro do seu próprio partido, o recém eleito prefeito de São Paulo “é um cidadão totalmente desprovido de escrúpulos, teve a sua vitória nas prévias pelo uso abusivo do poder econômico que tem e, infelizmente, pela ação do governo do Estado”.

A eleição de Doria premia o discurso da negação da política e acende uma luz de alerta aos setores democráticos da sociedade brasileira. É preciso reinventar o fazer político e resgatar a confiança da sociedade nas instituições e, claro, colocá-las a serviço da maioria do povo. Mas também é preciso estar alerta às consequências do discurso moralista que é alimentado na sociedade pela Lava Jato, sua Força Tarefa e o juiz titular da 13ª Vara Federal de Curitiba.

“Os juízes italianos – principalmente o promotor Antonio di Pietro – viraram heróis populares e a uma certa altura uma espécie de unanimidade, até mais que o papa”, afirmou o professor Alberto Vannucci à BBC.

Aqui no Brasil o juiz Moro não viu o menor problema em posar ao lado de João Doria para uma foto. Após participar de debate promovido pela Lide – Grupo de Líderes Empresariais, pertencente ao Grupo Doria, postou-se sorridente ao lado do candidato.

O promotor Antonio di Pietro, lembra o professor Vannucci, deixou de ser um magistrado e começou uma carreira política, criando seu próprio partido. E não importa que tenha fracassado. O mais grave foi o fracasso da democracia italiana.

A eleição em primeiro turno de Doria acirra os ânimos a respeito das eleições de 2018, quando o próprio juiz pode ser convencido de que o Brasil precisa de sua atuação saneadora. Ou outro “Berlusconi” pode ser convocado. A ninguém seria dado o direito de recusar um chamamento da pátria.

Na Itália, o desastre é conhecido e, mais de duas décadas depois, o país ainda não se recuperou dos estragos promovidos pelo moralismo da Mani Pulite, que não soube articular o combate à corrupção com ações duradouras e institucionais.

No Brasil da Lava Jato é pior. Mas talvez o “di Pietro” daqui não tenha a necessidade de criar outro partido, pois só um já é culpado por todos os males do Brasil. Mas, também, esse não seria um problema. Pode surgir um Novo partido.

2018 está longe. Mas fica o alerta das urnas, corremos o risco de ter um “Berlusconi” no comando da maior cidade do país e outro no centro político, em Brasília, principalmente se antes for garantida a inelegibilidade de Lula, apontado hoje em todos as pesquisas como favorito - o que pode ocorrer pelas mãos do próprio magistrado, o que o credenciaria ainda mais junto aos setores contrários a uma política de inclusão social e de combate às desigualdades. No mínimo, seria um grande cabo eleitoral, como foi com Doria.

Última modificação em Sexta, 07 Abril 2017 09:32

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