Sexta, 09 Setembro 2016 10:16

Marcela Temer e o jogo bruto do poder

O vestido branco de Marcela Temer no palanque do dia 7 de setembro pode ter tido um significado muito maior do que o “resumo de mensagem que o marido quer passar”. Em pouco tempo sob os holofotes como a esposa do presidente sem voto, Marcela Temer já passou por bastante pressão. Assim, o branco “cor da paz”, escolhido por ela, pode ser muito mais uma mensagem sua do que do marido. 

Na primeira grande tentativa de apresentar Marcela à sociedade, a revista Veja cunhou o “bela, recatada e do lar” como um elogio e assegurou: “em todos esses anos de atuação política do marido, ela apareceu em público pouquíssimas vezes. ‘Marcela sempre chamou atenção pela beleza, mas sempre foi recatada’, diz sua irmã mais nova, Fernanda Tedeschi. ‘Ela gosta de vestidos até os joelhos e cores claras’, conta a estilista Martha Medeiros”.

Era uma forte e clara mensagem conservadora, que buscava identificá-la com a mulher média brasileira, ou como pensam que deveria ser essa mulher média brasileira, em oposição à mulher de luta destacada na figura de Dilma Rousseff e citada pela desembargadora Kenarik Boujikian, que está nas ruas pelo “Fora Temer”.

Era a versão da Veja para o lugar da mulher na sociedade. É a versão de Temer que retoma a tradição de entregar à primeira-dama o assistencialismo, definindo também o papel do desassistido, do excluído na sociedade: destinatário não de políticas públicas que podem catapultá-lo a outra condição social, mas de migalhas que o manterão no “seu lugar social”.

Mas a imagem de Marcela está intimamente ligada à de Temer. E ter sua imagem ligada à de Temer significa participar de seus desgastes, que são muitos, e de suas glórias, que são poucas. Mais do que isso, Marcela pode ser um elo fraco de Michel – óbvio, além muitos outros. E ela descobriu isso de uma maneira bem cruel.

No dia 4 de agosto o sítio O Cafezinho trouxe texto do professor do departamento de comunicação social da UFES, Bajonas Teixeira de Brito Junior, com o título: “Globo humilha Marcela na sua estreia e mostra a Michel Temer quem é que manda”, em referência à edição do dia anterior do jornal. Diz o professor: “na representação que faz do casal nas suas núpcias políticas, a Globo quis deixar bem claro o seu poder de exaltar ou degradar uma figura pública. Em outras palavras: dizer para Temer que a imagem de Marcela é muito mais frágil do que ele poderia imaginar”.

O leitor deve ficar atento”, assevera o Brito Júnior, “para o fato de que a primeira imagem que aparece ao se abrir a matéria [também reproduzida aqui como a primeira foto], é inadequada para uma publicação séria. Mesmo num pasquim de quinta categoria seria baixaria. Mas na principal concessão pública de mídia no Brasil, a Globo, as insinuações deixadas no ar na primeira imagem pública da primeira dama do país, parecem ir além mesmo do assédio moral”.

Ainda o texto do professor:

“Essa apresentação insinuante, e não precisa que a Globo fosse uma emissora requintada para saber disso, está no plano do ignóbil. Não é apenas grotesca, está moralmente no rés do chão, fazendo uma insinuação que mesmo os mais reles programas, como o Pânico na TV, provavelmente rejeitariam por uma questão de escrúpulos”.

“É uma insinuação que dispensa explicações, e que permite ao leitor facilmente fazer todas as deduções e chegar as conclusões acertadas. É autoexplicativa. O que a Globo quis dar a entender, certamente não agradou à primeira dama interina, que deve ter se sentido extremamente ferida pessoalmente na sua ‘estreia’ na tela do poder da empresa. Há certas coisas que não se faz a uma mulher”.

E a razão para a agressão a Marcela, claro, para atingir Temer, pode estar na edição do dia anterior, 2 de agosto, do Globo, na coluna de Miriam Leitão. Com o título de “O risco de Temer”, Miriam faz o que sabe fazer de melhor, passar a mensagem de seus patrões: “O presidente interino, Michel Temer, dará um tiro no pé se incentivar a proposta de ser candidato em 2018. Sua melhor chance é trabalhar pelo seu legado, iniciando a superação da pior crise das últimas décadas, e depois encerrar a carreira e ir para casa. Se entrar na disputa, continuará fazendo um governo ambíguo, e o momento é delicado demais para isso”. E continua o recado: “É natural que o grupo que se empoderou por orbitar em torno dele queira a continuidade, mas ele tem poucas chances. É um político sem carisma, ruim de voto, que já demonstrou não estar atualizado com certos valores e a agenda do mundo atual. Um sinal disso foi a falta de mulheres no ministério, em um tempo em que a homogeneidade masculina é impensável em qualquer governo do mundo democrático”.

Num dia critica a ausência de mulheres no Ministério de Temer, no dia seguinte publica uma foto que coloca entre o casal um terceiro, um homem, numa imagem insinuantemente desonesta e vil. É o Globo avisando a Michel que seu “jornalismo” não tem limites e muito menos sua dignidade.

Assim, a jovem esposa de Michel se viu no centro de um furação. Mas Marcela já havia sentido o gosto e o desgosto da exposição pública. 

Foi durante a posse de Dilma Rousseff que chamou a atenção em função de sua beleza e juventude, na flagrante disparidade entre sua idade e a do marido. E ganhou dimensão excepcional com a matéria da revista Veja, publicada em 18 de abril de 2016, por Juliana Linhares. Menos de um mês depois, no dia 12 de maio, o marido assumia interinamente a Presidência da República e o perfil de Marcela ressaltado por Veja ganhou outra dimensão. Além de ter uma esposa recatada e do lar, no seu Ministério não cabia mulher. O conservadorismo que assumia o governo em resposta a mais de uma década de governos progressistas confirmava seu lado machista.

Quem chama atenção sobre si, o faz para o bem e para o mal. E, por incrível que pareça, a matéria de Veja pretendia incluir-se na primeira categoria. Foi exatamente isso que, no dia 2 de setembro último, denunciou o jornal Suíço Tagesanzeiger, que comparou a primeira-dama a Maria Antonieta, a rainha francesa que ostentava, “enquanto o povo governado por seu marido passava fome”, escreveu a Revista Fórum na matéria “Jornal suíço compara Marcela Temer a Maria Antonieta”.

O jornalista Beat Metzler abre seu texto na Tagesanzeiger exatamente tratando da reportagem de Veja: “Marcela Temer, desde quarta-feira a primeira-dama brasileira, poderia aparecer na primeira página de uma revista masculina. Como ‘bela, recatada e do lar’, foi descrita em uma revista. Isso foi um elogio”.

Mas antes do jornal suíço, no dia 16 de maio deste ano, Matt Roper, do tabloide britânico Daily Mail, já afirmara que a mulher do então presidente interino “tem um estilo de vida que pode ser comparado aos gostos extravagantes da ex-Imperatriz francesa Maria Antonieta”, transcreveu Mateus Almeida do Ego.globo, que trata de famosos.

Diz o Daily Mail: “Marcela Temer, 33 anos, é nova primeira-dama glamourosa e extravagante do Brasil; Seu marido, Michel Temer, 75, é agora presidente interino do país; Apelidada de a Carla Bruni brasileira, ela tem um exército de funcionários na folha de pagamento pública; Ela exigiu multimilionárias reformas para sua casa – pagas pelo contribuinte; Sua irmã Fernanda fez uma sessão de fotos muito ousadas na Playboy, que foi abafada”.

“Com a nação latino-americana em queda livre econômica e abalada por escândalos envolvendo políticos gananciosos, poucos vão perdoar a primeira-dama ostentação que parece perigosamente desconectada dos problemas de seu país”, afirmou Matt Roper, que lista algumas reações sobre a primeira-dama na internet.

Voltando ao suíço Tagesanzeiger: quando Michel Temer, em 2011, tornou-se vice-presidente, “sua esposa foi elevada rapidamente a queridinha da mídia sensacionalista. Elogiaram seu bom estilo, comparando-a a Carla Bruni e Jackie Kennedy. Temer publicou um volume de poesia sobre sua vida amorosa, fotos sensuais de Marcela circulavam. Ela se apresentava como dona de casa fiel que leva o filho para a escola e por trás do pescoço tem uma tatuagem ‘Michel’. Ao mesmo tempo, Marcela gostava de sua riqueza. Na residência oficial do vice-presidente, deixou correr milhões numa cara reforma para que ‘seu filho se sentisse em casa’. A família de três membros emprega mais de 50 funcionários, incluindo quatro empregadas para lavar e passar roupa. O estado paga tudo. A Marcela voa de primeira classe com sua mãe e irmã para Nova York ou Miami, para compras por um dia”.

A partir dessa abordagem de gastos exagerados, Marcela Temer equipara-se a outra mulher de destaque da nova república dos golpistas: a jornalista Cláudia Cruz, conhecida por ser a esposa do ex-deputado Eduardo Cunha, por conseguir esconder seu endereço do juiz Sergio Moro e por realizar gastos astronômicos com cartões de crédito no exterior.

Mas veio o 7 de setembro e Michel não falou mais em candidatar-se em 2018, e a imprensa, em paz com o marido de Marcela, exalta a primeira-dama.

A Folha de São Paulo, na edição do dia 9 de setembro último, trouxe um texto do seu colunista de moda, Pedro Diniz, responsável pela coluna Peça Única da Folha Ilustrada, o caderno de artes e variedades do jornal paulista. Mas seu texto não foi publicado como de moda. Saiu na sessão Poder, sob a retranca de análise. Portanto, a Folha pediu ao seu colunista de moda para fazer uma análise sobre Poder. E o título revela isso: “Marcela Temer vestiu resumo de mensagem que marido quer passar”. Isso, o texto sobre Poder tinha como objeto o vestido “branco e sem mangas e de colo descoberto” que a primeira-dama usou no desfile da Independência, em Brasília.

A imagem que se quis passar foi de discrição e simplicidade. O branco “cor da paz”, diz Pedro Diniz, “produziu mensagem de limpeza e simplicidade”, em “contraste ao clima de ebulição dos protestos anti-governo”. Ebulição não é uma palavra casual no texto do rapaz, sugere calor, que lembra o vermelho, de onde viria o sujo insinuado pelo “analista de poder” da Folha.

Mas seu fio de pérolas não tem fim: para Diniz, Marcela, “o novo rosto das causas sociais brasileiras”, preferiu “o jogo político da moda” e, seu vestido, de corte relaxado e minimalista, “também soa como resposta a quem acusa Michel Temer de ser um político distante do povo”.

O vestido “cor da paz” de Marcela, para o escriba, é mais significativo da proximidade do marido com o povo do que sua chegada à cerimônia em carro fechado e do que os gritos de “Fora Temer” que ecoaram das arquibancadas e o seguem como uma sombra em todos os lugares que passa.

O vestido discreto “custou 610 reais e foi escolhido pessoalmente por Marcela, que costuma prestigiar estilistas brasileiros”, escreveu Maria Rita Alonso, no jornal O Estado de S. Paulo, já no dia 7 de setembro.

A primeira-dama foi a uma loja de Brasília, Ortiga, e escolheu dois vestidos da grife”, anotou o sítio Diário do Poder. O eleito para o Dia da Independência foi “Vestigo Go”, assinado pela “talentosa neodesigner” Luisa Farani, que está entre “quatro grifes da novíssima safra nacional, que prometem voar ainda mais alto este ano e invadir as melhores multimarcas do País - e seu closet, claro!”, registrou a revista Vogue Brasil no seu sítio no dia 7 de janeiro deste ano: “Class of 2016: Luisa Farani, prática sem ser banal”.

No sítio do jornal O Dia, a jornalista Bianca Lobianco, que “não dispensa um assunto sobre moda e afins”, destaca que “Marcela e Temer têm uma equipe que pensa em cada detalhe de suas imagens e por este motivo, para limpar a barra da primeira-dama, o vestido eleito custa R$ 600. Um valor que não chega nem a um terço do que Marcela está acostumada a usar”. Lobianco continua afirmando que “Marcela chamou para si os holofotes, representando algo que não é, e assim, mais uma vez, tirou o foco do alto índice de rejeição que Temer tem Brasil afora. Gerenciamento de imagem é o nome disso”.

Certamente Lobianco acerta quando fala em gerenciamento de imagem, apesar de ser difícil concordar com sua conclusão sobre o resultado. Outros sítios conseguiram publicar coisas ainda mais esdruxulas sobre a primeira dama. Por exemplo, o noticiasaominuto, em sua sessão Lifestyle, tem coragem de apresentar o seguinte título: “Veja o estilo de Marcela Temer, a Kate Middleton brasileira”. No dia seguinte ao evento de Brasília, o Terra trouxe matéria sobre a princesa da Inglaterra, a verdadeira Kate Middleton, casada com o Príncipe William: “Kate Middleton surpreende com calça de 25 dólares em evento”.

Lobianco reconhece que “Marcela não é a nova Kate Middleton, a princesinha do povo” e que “esse vestido branco não é o que Marcela usaria normalmente em um evento, como já vimos anteriormente em outras grandes cerimônias importantes no país”. Seguindo um pedido de discrição feito pelo marido, escreveu a jornalista, “a primeira-dama passa uma mensagem de que é do povo, de que é gente como a gente e deixa transparecer uma simplicidade forjada”. O mesmo que diz o Diniz da Folha: "a roupa de Marcela, mesmo que custe quase um salário mínimo, parece saída do armário de uma brasileira média. E o valor agregado a isso é incalculável", concluiu filosófico.

É fácil perceber nos jornais e nos sítios da internet que há sim uma campanha sobre a imagem da primeira-dama. Pretende-se utilizar sua beleza para contrabalançar o jeito asséptico de Temer, a quem o falecido Antonio Carlos Magalhães comparou, em julho de 1999, a um “mordomo de filme de terror”.

Assim, a atenção sobre Marcela não é porque, como diz o sabujo escritor da Folha, “diferentemente das últimas mulheres que ganharam o noticiário político do país”, numa explícita referência à ex-presidente Dilma Rousseff, “ela ainda é jovem, tem porte atlético e já mostrou interesse por moda”. Em uma frase o infante da Folha atingiu não só Dilma como a maioria da mulheres brasileiras, as que já não são jovens, que não têm porte atlético e não se interessam por moda.

A campanha de gerenciamento das imagens de “Mar” e “Mi”, como o casal Temer se trata em família, segundo a Veja, vai ter muito trabalho pela frente. O governo Temer está premido por uma enorme rejeição popular e pelos patrocinadores do impeachment, que exigem o pagamento da fatura. Quanto mais atender aos últimos, maior será a pressão dos primeiros. E por mais que se esforce e use o branco, será difícil apagar a nódoa do golpe aplicado pelo professor de Direito Constitucional que rasgou a Constituição. Que Marcela se prepare, o futuro do governo do maridão não é nada animador.

Texto citados.

Globo humilha Marcela na sua estreia e mostra a Michel Temer quem é que manda
Marcela Temer vestiu resumo de mensagem que marido quer passar
Marcela Temer veste look claro para desfile militar de 7 de setembro
Primeira-dama usa vestido de estilista brasiliense no 7 de setembro
Vestido ‘simples’ de Marcela Temer tira ‘Fora Temer’ do foco e passa falsa imagem de inclusão
Jornal suíço compara Marcela Temer a Maria Antonieta
Die brasilianische Marie Antoinette (em alemão)
Marcela Temer: bela, recatada e “do lar”
Veja o estilo de Marcela Temer, a Kate Middleton brasileira
Marcela Temer é comparada a Maria Antonieta pelo jornal Daily Mail
Daily Mail (em inglês)

Última modificação em Segunda, 12 Setembro 2016 22:04

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