Quarta, 24 Agosto 2016 14:35

E os bons, onde estão?

Ao ler a suposta ira santa do ministro Gilmar Mendes criticando os excessos da Lava Jato e defendendo o Estado Democrático de Direito é impossível não lembrar da frase, inúmeras vezes citada, de Martin Luther King: “o que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons”. Para escaparmos do moralismo autoritário do juiz Sérgio Moro e dos procuradores da Lava Jato, sob as bençãos do procurador-geral da República Rodrigo Janot, nos sobra … Gilmar Mendes?

“Estado de Direito tem que ser Estado de Direito. Não se combate crime com a prática de crime. É preciso moderação, que os procuradores calcem as sandálias da humildade”. (“‘O cemitério está cheio desses heróis’, diz Gilmar Mendes sobre procuradores da Lava Jato”)

Pois Gilmar Mendes fala em “sandálias da humildade”. E o ministro sem freios fala que “é preciso colocar freios” na atuação dos procuradores da República.

Muito do que disse o ministro é verdade. Mas seria mais verdade se fosse dito por uma boca mais republicana.

Particularmente agora que cresce no útero escuro do Congresso e do governo o acordão para liberar os cínicos.

O sentimento comum na força-tarefa da Lava Jato, expresso pelo “procurador anônimo” citado pela jornalista Natuza Nery na nota “Marionete, não” do Painel da Folha, é de que eles foram usados para derrubar a presidente Dilma Roussef: “éramos lindos até o impeachment ser irreversível. Agora que já nos usaram, dizem chega”.

O “procurador anônimo” quer convencer alguém que foi abusado. Mais fácil seria admitir que encantou-se com o espelho mágico e, como a bruxa, ultrapassou todos os limites para “manter-se a mais bela”. Mas espelho mágico somente existe em conto de fadas. Na vida real, os espelhos têm donos. E a força tarefa sabia muito bem que servia a um dono, mas encantou-se com a conversa da beleza que aparecia nas telas e com o seu real significado: o Poder.

Gilmar não é nenhum príncipe encantado para entrar nessa história. Pode, no máximo, ser o narrador. Digamos, o porta-voz Supremo. Só que Gilmar não cabe nesse conto de procuradores magoados, o ministro sempre foi porta-voz de seus próprios interesses.

Só defende seu amigo e colega Dias Toffoli para defender a si e seus interesses.

O The Intercep Brasil destaca, na matéria “Gilmar Mendes e a (a)normalidade das instituições”, de João Filho, que “a sobriedade, a discrição e o decoro que se esperam de um juiz da mais alta corte do país são características que passam longe da figura de Gilmar. Nem neste momento em que o país vive a sua maior crise política, Vossa Excelência se recusa a abandonar o seu jeitão especial de ser. Há 14 anos, ele vem descumprindo requisitos básicos para um magistrado dessa envergadura: fala fora dos autos, protagoniza bate-bocas públicos e confraterniza com amigos que serão julgados por ele. Essa afronta ao Estado Democrático de Direito tem sido tão recorrente, que já foi naturalizada pelo noticiário e nem causa mais espanto”.

O que disse Gilmar já disseram bem antes os Juízes pela Democracia: “vale, sempre, lembrar que ilegalidade não se combate com ilegalidade e, em consequência, a defesa do Estado Democrático de Direito não pode se dar às custas dos direitos e garantias fundamentais”.

E a diferença é essa: precisamos de mais juízes e promotores pela democracia e de menos gilmares e moros e janots.

Mas, infelizmente, está naturalizado também o silêncio dos bons. E nesta terra de mudos, quem grita mais alto intimida todos.

Última modificação em Quinta, 25 Agosto 2016 04:38

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.