Quarta, 08 Junho 2016 05:00

Ítalo foi morto pela PM de São Paulo. “Tchau querido”

Na noite da quinta-feira, 2 de junho de 2016, a Polícia Militar do Estado de São Paulo matou um menino de 10 anos com um tiro na cabeça. A versão para os fatos apresentada pelos militares Silva e De Marqui são inusitadas. Muita gente nas redes sociais perguntou, indignada, “onde estava a mãe desse menino?” Não havia nenhuma pergunta sobre onde estava a mãe do policial da Rocam que atirou num menino de 10 anos e intimidou um de 11 anos. O governador Geraldo Alckmin foi taxativo: “é evidente que os menores estavam armados e houve tiros”. E completou: “mas vamos aguardar a apuração com todo rigor”.

Ítalo foi morto ao trocar tiros com a Polícia Militar após ter batido um Daihatsu Terios roubado do interior do condomínio na Vila Andrade, na Zona Sul de São Paulo.

Ítalo era filho de pai que está preso por tráfico e de Cintia Francelino, 29 anos, que já cumpriu pena por furto e roubo.

Ítalo tinha passado 20 vezes pelo Conselho Tutelar.

Ítalo era morador de favela.

Ítalo, perseguido por policiais da Rocam (Rondas Ostensivas Com Apoio de Motocicletas), unidade da Polícia Militar de São Paulo, dirigia o carro em fuga, baixou o vidro e atirou duas vezes com o revólver 38 – o que nos permite supor que atirava com o 38 com somente uma das mãos, a outra estava habilmente manobrando o volante.

Quando o veículo bateu em um ônibus, continua o policial em seu depoimento, Ítalo fechou o vidro, abriu a porta e fez novo disparo em direção aos policiais. O PM, sob fogo, contou depois, mirou onde estaria o ombro do violento agressor para desarmá-lo.

A bala atingiu a cabeça de Ítalo.

Ítalo tinha 10 anos.

Em nenhum momento os policiais perceberam que o Daihatsu era ocupado por duas crianças.

O governador Geraldo Alckmin disse que o caso é “uma tragédia, uma criança com uma vida toda pela frente”.

Os policias fizeram um vídeo com o amigo de Ítalo, de 11 anos, em que o garoto confirma que o colega atirou duas vezes na polícia, num primeiro momento, e, depois que bateu o carro, disparou de novo antes de ser atingido.

O vídeo feito pelos policiais sem a presença da família ou de advogados foi vazado para a imprensa.

Em novo depoimento, o garoto de 11 anos mudou a versão e disse que o colega deu três tiros durante o trajeto - não tendo disparado depois da batida do carro. No momento que o carro parou, disse, os policiais atiraram nele.

E ainda em terceiro depoimento, a uma psicóloga, o garoto diz que o tiro que matou Ítalo foi disparado por um policial da Rocam imediatamente após o carro ter colidido. Disse ainda que o mesmo policial que atirou o deitou no chão e deu um tapa no seu rosto. E ainda afirmou que os policiais disseram que seria morto caso não tivesse pai e mãe.

Como sempre acontece, casos que envolvem a polícia e crianças ganham um espaço enorme na mídia. Assim foi construída a opinião pública sobre a necessidade de redução da maioridade penal. Isso, apesar dos casos de “menores” envolvendo violência serem estatisticamente irrisórios – menos de 0,5%, frisando, menos da metade de um por cento dos homicídios são cometidos por jovens.

Se a criança está armada e atira contra policiais, aí é sucesso garantido e fomenta aquele, “Tá vendo, olha eles ai de novo”.

Ítalo, isso mesmo, a primeira surpresa: o menino de 10 anos morto pela PM tem nome. Na imprensa o nome só aparece no texto sobre o enterro. E, mais surpresas, tem pai e mãe.

Nas redes sociais muitas pessoas perguntaram: “onde estava a mãe desse menino?” Ninguém perguntou: “e um policial que atira numa criança de 10 anos, tem mãe?”

Não consegui identificar onde estava dona Cíntia Francelino. Talvez realizando outro furto, talvez trabalhando, talvez não fazendo nada. Também não há informação sobre a mãe do policial. Onde estaria ela? Estará ela orgulhosa do filho que teve o sangue frio para, sob fogo, mirar no ombro do adulto com o intuito de desarmá-lo. Talvez esteja orgulhosa da pontaria do filho.

Ou talvez, a se acreditar no terceiro depoimento do amigo de Ítalo, que seria morto pelo policial se não tivesse pai e mãe, também esteja orgulhosa do filho por ter livrado a sociedade de um pequeno marginal.

Mãe sempre tem orgulho de filho.

O diálogo registrado no vídeo feito pelos policiais e vazado para a mídia é extremamente revelador.

Menino de 11 anos: “Ele [menino morto pela PM] me chamou para roubar um prédio. Ele tava com uma arma, ele falou pra mim 'vamos matar os moradores para dormir no prédio’”.

Policial: “E depois que os policiais encontraram vocês, ele deu tiro pra cima dos policiais, ele se machucou, aí os policiais te salvaram?”

Menino: “Foi, eu comecei a chorar lá no carro.”

Policial: “Mas agora todo mundo te tratou bem, você está protegido.”

Menino: “Tô”.

Policial: “Você nunca mais vai roubar?”

Menino: “Não. Quero estudar e virar jogador de futebol, ser alguém na vida.”

O governador Geraldo Alckmin disse ter visto o vídeo: “É evidente que os menores estavam armados e houve tiros, mas vamos aguardar a apuração com todo rigor”.

O governador Geraldo Alckmin não comentou sobre o desejo do menino de 11 de estudar. Talvez porque as escolas de São Paulo estejam ocupados por estudantes.

A apuração com rigor vai ser feita pela Polícia Militar.

O secretário da Segurança Pública, Mágino Alves Barbosa Filho, afirmou que considerou legítima a ação da PM. “Não me apresentaram qualquer evidência que a ocorrência não tenha sido absolutamente legítima por parte da polícia”.

O advogado Ariel Castro Alves, integrante do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana, também fala a respeito do vídeo: “Não podemos esquecer que era um menino de 11 anos”.

Esses caras dos direitos humanos são assim mesmo, conseguem enxergar um menino de 11 anos em um ladrão de carro.

A mãe, dona Cíntia, claro, não acredita na versão da PM. Lembra-se, as mães tendem a ter orgulho e proteger os filhos: “Eu preciso ajudar meu filho, ele é uma criança de 10 aninhos, ele não ia saber atirar, é uma 38. Eles que colocou, eu tenho certeza que eles que colocou. A arma é dos policiais, eu quero fazer a digital”.

Detalhe é que a mãe fala como se o filho estivesse vivo. Coisa de mãe, mesmo daquelas que não estão presentes quando o filho rouba um carro.

Em 2014, Ítalo foi mandado pela Justiça de Peruíbe, Litoral Sul do estado, para a capital, onde moram a avó e uma tia, pois dona Cíntia havia sido presa por roubo. O pai já estava na cadeia por tráfico de drogas. Ítalo tinha 8 anos.

Mas nenhum parente quis ficar com Ítalo. Ele foi morar nas ruas.

Ítalo e o amigo que seria morto se não tivesse família, só neste ano, roubaram gôndolas de supermercado e também hóspedes de um hotel. Nos três registros eles não portavam arma.

Em 13 de julho de 2015, por ameaça, foram levados à Delegacia do Turista no Aeroporto de Congonhas.

Por incrível que pareça, os dois amigos até trabalhavam: segundo um amigo de Ítalo, eles costumavam engraxar sapatos no aeroporto.

No 27º DP, no Ibirapuera, foram recolhidos algumas vezes: no dia 31 de janeiro por furto, no dia 14 de fevereiro por dano a patrimônio e no dia 22 de abril também por furto.

Vamos e convenhamos que o futuro de Ítalo não era dos mais promissores.

“E onde estava a mãe desse menino?”

Perguntam os conservadores nas redes sociais.

E onde estava o Estado para ensinar o PM como agir com crianças, pobres, de rua.

E onde estava o Estado e a sociedade para evitar que Ítalo estivesse na rua. Para oferecer ao pai de Ítalo, esse ser sem nome que já está apartado da sociedade, e a dona Cíntia alternativas para cuidar de Ítalo.

O assassinato de Ítalo grita ao mundo a falência das políticas públicas para crianças e adolescentes e para pais e mães de Ítalos.

Claro que a resposta a isso tudo pode ser simplesmente dizer para o Ítalo “tchau querido” e tudo que isso representa.

Última modificação em Quinta, 05 Abril 2018 09:22

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