Domingo, 12 Junho 2016 20:36

Ritalina, a pílula do status quo e panaceia para crianças e adultos

A Ritalina é uma droga indicada para alguns pacientes diagnosticados com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). No entanto, o seu uso está tão disseminado que a quantidade de diagnósticos de TDAH indica, falsamente, que o mundo vive uma epidemia. Mais do que isso, a Ritalina tem uma história polêmica. No começo, era usada para preparar crianças dos EUA para competir com os comunistas soviéticos, agora, a Ritalina cerra fileiras contra as "crianças problemáticas ou más" e é usada por muitos adultos simplesmente para aumentar a concentração em tarefas e situações corriqueiras da vida.

Nos EUA, o diagnóstico de TDAH já chegou a 15% dos estudantes de nível médio e no Brasil, foram 94 kg de metilfenidato consumidos em 2003 contra 875 kg em 2012. Houve, portanto, um crescimento de 775%.

O consumo também foi diversificado e a Ritalina passou a ser usada pelos concurseiros e estudantes, sem diagnóstico de TDAH, para aumentar a concentração nos estudos e nas provas.

A anomalia não está nas crianças nem nos jovens, mas no uso indiscriminado da droga. A Ritalina, mais do que um remédio para controlar um transtorno, tem sido um instrumento de poder associado ao controle de comportamentos indesejáveis ou à indução de comportamentos desejáveis.

Essa situação transformou a Ritalina numa droga polêmica, que hoje divide apaixonadamente as opiniões de profissionais da área de saúde. Existem os que a receitam como uma droga qualquer e outros que simplesmente condenam o seu uso. Esse debate chega a se radicalizar, sem possibilidade de conciliação.

E, óbvio, a Ritalina é uma fonte de lucro certo para o laboratório que a produz, que conseguiu associar o TDAH à droga e a droga a vantagens cognitivas e comportamentais. Criaram assim, uma demanda constante pela Ritalina que atinge ao público infantil e adulto. A estratégia garante a ampliação regular do número de consumidores.

O metilfenidato, da família das anfetaminas, está na base da composição da Ritalina e tem a propriedade de estimular a concentração e reduzir a impulsividade.

A primeira anfetamina foi sintetizada na Alemanha, em 1887. Mas somente cerca de 40 anos depois, a droga começou a ser usada pelos médicos para aliviar fadiga, alargar as passagens nasais e bronquiais e estimular o sistema nervoso central. Em 1932, foi lançada na França a primeira versão comercial da droga, com o nome de Benzedrine, na forma de pó para inalação. Cinco anos mais tarde, a Benzedrine surgiu na forma de pílulas, que chegou a vender mais de 50 milhões de unidades nos três primeiros anos após sua introdução no mercado1.

O metilfenidato foi sintetizado em 1944. Inicialmente não se destinava às crianças, apesar das anfetaminas já terem sido utilizadas em 1937 para tratar dores de cabeça de crianças e ter sido registrado o surpreendente efeito de estimular a concentração.

Somente 20 anos depois, em 1964, o psicólogo clínico Keith Conners, da Universidade Johns Hopkins em Baltimore (EUA), fez o primeiro ensaio clínico aleatório com a Ritalina em crianças com “transtornos emocionais”.

A resposta das crianças foi imediatamente positiva. E Conners disse à BBC: “estavam emocionadas de tomar um remédio que ajudava com suas tarefas. Sentiam que já não eram crianças problemáticas ou más”.

A droga da Guerra Fria

O historiador Matthew Smith, da Universidade de Strathclyde (Escócia), complementa a história. Nos Estados Unidos da década de 1960, a "pílula da matemática", como ficou conhecida a Ritalina, foi usada para enfrentar a disputa pela supremacia do conhecimento com a União Soviética. "Havia uma corrida científica e espacial com a União Soviética, e por isso o novo sistema educativo exigia que as crianças permanecessem sentadas em suas carteiras fazendo tarefas". Smith é autor do livro Hyperactive: The Controversial History of ADHD ("Hiperativos: a controversa história do TDAH", em tradução livre).

Desde então, a “pílula da matemática” ultrapassou todas as barreiras. Os números do consumo da Ritalina hoje são espetaculares. O próprio Keith Conners, que teve um papel relevante na popularizar do medicamento nos EUA, afirma: "quando começamos, não conseguíamos convencer as pessoas de que havia crianças com TDAH. Agora parece que elas são encontradas até embaixo das pedras".

Alan Schwarz, premiado por uma série de reportagem sobre lesões cerebrais em jogadores de futebol americano, publicou em 14 de dezembro de 2013 no The New York Times um texto (“A venda de Transtorno de Déficit de Atenção”) afirmando que “depois de mais de 50 anos liderando a luta para legitimar hiperatividade e o défict de atenção, Keith Conners poderia estar comemorando”, no entanto, não se “sentia triunfante”. Conners destaca que os números sobre o défict de atenção indicam que há uma epidemia, o que “é um absurdo". E completa que hoje existe a “adoação de medicamentos em níveis sem precedentes e injustificável."

Conners, segundo Schwarz, observou que os dados recentes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças2, dos EUA, mostram que o diagnóstico tinha sido feito em 15% das crianças em idade escolar do ensino médio, e que o número de crianças que tomam medicamentos para o transtorno tinha aumentado de 600 mil em 1990 para 3,5 milhões em 2013. Conners questionou o aumento das taxas de diagnóstico, o que classificou de "um desastre nacional de proporções perigosas".

As verdas da indústria farmacêutica

Em sua tese de doutorado pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), defendida em maio de 2014, a psicóloga Denise Barros compilou os dados dos relatórios anuais sobre substâncias psicotrópicas da Junta Internacional de Controle de Narcóticos, órgão vinculado às Nações Unidas.

Pelo levantamento, o volume de metilfenidato importado pelo Brasil ou produzido em território nacional passou de 122 kg em 2003 para 578 kg em 2012, alta de 373%. A pesquisadora cruzou os dados da produção e importação e do estoque acumulado em cada ano, dado também disponível nos relatórios, para chegar aos prováveis índices anuais de consumo. De acordo com o levantamento, foram 94 kg consumidos em 2003 contra 875 kg em 2012, crescimento de 775%.

Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) confirmam a tendência de alta. Segundo o órgão, o número de caixas de metilfenidato vendidas no Brasil passou de 2,1 milhões em 2010 para 2,6 milhões em 2013.

No artigo3 publicado no The New York Times em dezembro de 2013, Alan Schwarz denuncia que "por trás desse crescimento [do consumo e do número de diagnósticos] está o marketing da indústria farmacêutica" que fez expandir a classificação do TDAH clássico "para incluir comportamentos relativamente normais como descuido e impaciência". Há, também, muitas vezes, o exagero sobre os benefícios das pílulas. Publicidade na televisão e em revistas populares "incluiu o esquecimento e as notas baixas entre as justificativas para o uso de medicamentos que, entre outros benefícios, poderia resultar em um 'trabalho escolar correspondente à sua inteligência' e ainda aliviar tensões familiares". As imagens reproduzidas aqui confirmam essa publicidade sub-reptícia. 

Um anúncio de 2002 do Adderall, conta Schwarz, mostrou uma mãe brincando com seu filho, dizendo: "Obrigado por nos tirar do lixo".

Desde 2000, a Food and Drug Administration [FDA, a agência de controle de medicamentos dos EUA] citou algumas vezes as principais drogas de tratamento do TDAH – estimulantes como Adderall, Concerta, Focalin e Vyvanse e outros como Intuniv e Strattera – por publicidade falsa e enganosa.

O artigo do Times cita também o envolvimento de profissionais de saúde: "Fontes de informação aparentemente neutras também são utilizadas na propaganda da indústria farmacêutica. Os médicos pagos por empresas farmacêuticas têm publicado pesquisas e feito apresentações que incentivam outros médicos a fazer mais frequentemente diagnósticos do que a desacreditar as preocupações crescentes sobre o excesso de diagnósticos".

Ele ainda continua: "muitos médicos têm apresentado os medicamentos como benignos - 'mais seguro do que a aspirina', dizem alguns - mesmo sabendo que eles podem ter efeitos colaterais significativos e que estão regulamentados na mesma classe da morfina e do oxicodona [um fármaco opioide analgésico, análogo semi-sintético da morfina] por causa de seu potencial para o abuso e a dependência. E mesmo grupos de defesa de paciente já tentaram fazer com que o governo afrouxasse a regulamentação de estimulantes ao ter grande parte de seus orçamentos operacionais cobertos por verbas da indústria farmacêutica".

Para especialistas, a alta no uso do medicamento reflete maior conhecimento da doença e aumento de diagnósticos, mas também levanta o alerta de uso indevido da substância, até por pessoas saudáveis que buscam aumentar o rendimento em atividades intelectuais.

No artigo4 “A Ritalina no Brasil: produções, discursos e práticas” também assinado por Denise Barros e outros estudiosos, pode-se compreender um pouco mais as origens desse aumento de consumo. Um dos pontos abordados é a relação do medicamento com a construção do diagnóstico. “A associação Ritalina-TDAH pôde ser constatada na análise das publicações científicas e endossada em seu modo de difusão pela mídia. A análise dos artigos que investigam o uso terapêutico da Ritalina em TDAH mostra que estes são unânimes em defender a hipótese segundo a qual a entidade nosológica TDAH é confirmada por responder bem ao efeito terapêutico da medicação”.

Ou seja, o diagnóstico de TDAH que envolve um grau significativo de subjetividade, pois os diversos “sintomas” podem estar associados tanto a outros transtornos quanto a comportamentos sociais considerados “desajustados” ou “problemáticos ou maus”, conforme relatou Conners, é confirmado quando a Ritalina faz efeito.

Assim, o ‘efeito rebote’ (looping effect), “a relação entre a eficácia do medicamento e o diagnóstico”, tem contribuído consideravelmente para a expansão do diagnóstico. “Há uma ampliação da categoria com inclusão de novos sinais e sintomas, o que faz com que novas pessoas se reconheçam e se identifiquem com os comportamentos que caracterizam o transtorno. Isso produz o aumento da demanda por tratamento e, consequentemente, aumento do consumo da Ritalina, e aumento do interesse popular pelo assunto”.

Indução ao consumo

Há assim uma indução na conduta das pessoas, “que passam a guiar seus comportamentos pela crença de que são indivíduos portadores de uma patologia, faz com que um maior número de indivíduos sejam diagnosticados, o que tem contribuído para o aparecimento do “adulto com TDAH”. Isso torna toda a população candidata potencial a ser portadora do transtorno.

O efeito bola de neve cresce com o trabalho sutil e permanente da publicação dos resultados das pesquisas financiadas direta ou indiretamente pela indústria. Quando mais os números de diagnósticos aumentam, mais se divulga os seus sintomas e mais as pessoas se identificam e a seus próximos como portadores do transtorno.

A banalização das informações na mídia também contribui para que o transtorno seja incorporado na vida das pessos. A ponto de a caracterização do TDAH, constante do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-IV, ter virado cartilha para as escolas, pais e professores, facilmente encontrado na internet5.

Muitas vezes, os pais de crianças “problemáticas” já recebem instruções nas escolas para procurar um psquiatra para receitar a Ritalina. Controlada pela droga, o “desajuste” desaparece e o transtorno é confirmado. As causas do comportamento não são levandas em consideração. O que importa é estancar a fonte de problemas.

O DSM é destinado a profissionais da área da saúde mental e lista diferentes categorias de transtornos mentais e critérios para diagnosticá-los, de acordo com a Associação de Psiquiatria dos EUA (American Psychiatric Association- APA).

O DSV-IV (já existem versões mais atualizadas) certamente não surgiu do nada. É uma das pontas visíveis de um processo iniciado há muito tempo, quando, no século XIX, a psiquiatria incorpora-se ou é incorporada ao poder político da sociedade como instrumento de controle sobre o comportamento social e suas anomalias. O controle e mapeamento das condutas aberrantes e desviantes que eram normatizadas pela Igreja Católica e tratadas como influência de satanás, passam, com uma cobertura supostamente científica, ao controle da medicina, no caso, da psiquiatria.

Abre-se a porta para a medicalização dos problemas sociais. A medicalização não é apenas a prescrição de medicamentos, mas o uso do poder de “verdade” conferido à autoridade científica para abordar questões geralmente de natureza social como um problema supostamente de saúde.

Abrindo novos mercados

Michael Terma afirma em artigo publicado no site psychologytoday que de 1990 até 2013 o número de crianças “usando drogas poderosas” havia subido quase seis vezes: “uma em cada seis crianças dos EUA foram diagnosticadas com TDAH”. E vai mais além: “é evidente que os anúncios na televisão e em revistas de consumo convenceu muita gente. Se o seu filho se esqueceu de fazer as tarefas ou tem notas mais baixas do que gostariam, a causa deve ser uma condição médica e o remédio deve ser uma pílula. A pílula, a propósito, que alguns médicos afirmam que eles devem comprar e levar para o resto de suas vidas”.

Mas o artigo de Terma defende a tese de que o mercado infantil para TDAH está saturado e a indústria está-se voltando para os adultos. De fato, no Brasil, crescem as denúncias de que cada vez mais jovens concurseiros e vestibulandos estejam usando a Ritalina para ajudar na concentração e nos estudos, o que lhe rendeu o apelido de “pílula da inteligência”.

Outra mistificação. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostrou que o medicamento não beneficia a atenção, a memória e as funções executivas (capacidade de planejar e executar tarefas) em jovens sem o transtorno.

Afirma a psicóloga Silmara Batistela, autora do estudo, que "é muito comum ouvir o relato de pessoas que, para passar a noite estudando antes da prova, tomam Ritalina".

Modelo de Doença

O uso da Ritalina por pessoas que não apresentam o transtorno é mais um exemplo do modelo de saúde que prevalece em muitos países, o da medicalização dos problemas sociais. Em artigo de março de 2012 no mesmo psychologytoday, a psicóloga Marilyn Wedge pergunta “Por que as crianças francesas não têm Déficit de Atenção?6

Wedge escreve que nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%.

A razão dessa disparidade, segundo a autora, é que “os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos”. Eles não usam o DSM. “De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3 [a versão da época da decisão francesa].

Essa alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas”.

Veja a íntegra da matéria publicada pela BBC Brasil. Link alternativo.

Clique no número para retornar ao ponto de leitura.

1. Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Anfetamina

2. O Centers for Disease Control and Prevention (Centro de Controle e Prevenção de Doenças – sigla oficial CDC) é uma agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, sediada no Condado de DeKalb, Geórgia, Estados Unidos, adjacente ao campus da Emory University e à leste da cidade de Atlanta. http://www.cdc.gov/.

3. O comércio do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.

4. O artigo “A Ritalina no Brasil: produções, discursos e práticas” (http://www.scielo.br/pdf/icse/v14n34/aop1510.pdf), assinado por Francisco Ortega, Denise Barros, Luciana Caliman, Claudia Itaborahy, Lívia Junqueira e Cláudia Passos Ferreira, tem o objetivo de apresentar uma pesquisa em andamento sobre as representações sociais da Ritalina no Brasil entre 1998 e 2008. Publicado no SciELO - Scientific Electronic Library Online (www.scielo.org/), biblioteca virtual que apresenta Coleção de revistas e artigos científicos.

5. Sintomas e Diagnósticos de TDAH, em espanhol, no site do CDC.

6Por que as crianças francesas não têm Déficit de Atenção?

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Última modificação em Sábado, 13 Agosto 2016 15:14

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