Segunda, 28 Julho 2014 12:26

Neturei Karta: “Israel afronta a memória das vítimas do holocausto”

“Justamente por termos vivido o Holocausto, temos de aprender a tolerância e o respeito pelos outros - não usar o nosso sofrimento como uma desculpa para oprimir os outros". A frase é da Neturei Karta, judeus contra o sionismo, um grupo de judeus ortodoxos contrário ao sionismo e ao estado de Israel. A sua crítica fundamental é de que a ideologia do sionismo transformou o judaísmo de religião espiritual, em nacionalismo materialista. Acreditam que paz só será possível com o desmantelamento do Estado de Israel. Denunciam também a conivência sionista com o Holocausto.

A existência de judeus a favor da paz na Cisjordânia não é nada surpreendente. Mas existem também judeus contra a existência do Estado de Israel. São alguns judeus ortodoxos, numericamente poucos representativos, reunidos na Neturei Karta, termo em aramaico que significa “Guardiães da Cidade” e tem origem em uma passagem do Talmud, o livro sagrado do judeus.

O sionismo é um movimento que ganhou maior expressão no final do século XIX em que judeus passaram a defender a volta à terra prometida e o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado nacional judaico independente e soberano no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel.

O monte Sião está em uma das colinas nas proximidades de Jerusalém e em muitas passagens bíblicas, os israelitas são chamados de "filhos (ou filhas) de Sião". A expressão foi usada pela primeira vez no final dos 1800.

O Neturei Karta faz manifestações de rua a favor do retorno dos palestinos às suas terras e condena a existência do Estado de Israel. A motivação é religiosa:

“A Torá ensina que os judeus estão no exílio por um decreto divino. Judeus são obrigados a respeitar as nações nas quais vivem. A Torá proíbe judeus de ter seu próprio Estado. Judeus devem aceitar o decreto do Todo-Poderoso e esperar pacientemente por sua redenção, sem qualquer intervenção humana. Escusado será dizer que os judeus são proibidos de roubar a terra, matar ou expulsar qualquer pessoa. Justamente por termos vivido o Holocausto, temos de aprender a tolerância e o respeito pelos outros - não usar o nosso sofrimento como uma desculpa para oprimir os outros”.

O mais surpreendente é a grave denúncia de que sionistas foram coniventes com o holocausto para fortalecer sua luta, na perspectiva do quanto pior melhor: quanto mais judeus fossem sacrificados, maior seria a sensibilidade dos vitoriosos com a causa sionista.

Rabinos ortodoxos, sobreviventes e descendentes de sobreviventes do Holocausto, numa conferência de imprensa em Berlim, no dia 27 de janeiro de 2014, criticaram uma cerimônia realizada, no dia anterior, em Auschwitz, por 69 políticos israelenses, que pretendeu alertar para o crescente anti-semitismo na Europa.

Os rabinos classificaram de repugnante o fato do Estado de Israel, cujos fundadores teriam se recusado “a resgatar judeus enquanto o holocausto estava acontecendo”, tenha realizado cerimônia acerca do Holocausto.

A nota da Neturei Karta foi divulgada dia 28 de janeiro de 2014 em Berlim.

“Nós sobrevivemos nos escondendo em um bunker em Budapeste durante o Holocausto”, disse o rabino Moshe Dov Beck, de 79 anos. “Todos sabem que a política sionista durante o Holocausto foi de derramamento em grande escala de sangue judeu, pois poderia ajudá-los a alcançar o seu Estado depois da guerra, como um presente para compensar a culpa manipulada e a simpatia dos vencedores. Eles provocaram o anti-semitismo e sabotaram os esforços de resgate, tudo por seu objetivo político”.

O anti-semitismo de hoje é atribuído, “em grande parte” à “existência do Estado de Israel e de suas atrocidades”. Para a Neturei Karta “as queixas de Israel são falsas”. Porque “é claro e óbvio que[os sionistas] colhem os benefícios. Quanto mais anti-semitismo no mundo, mais judeus irão imigrar para Israel”, disse o rabino Dovid Feldman.

“Os sionistas querem que o mundo acredite que elas representam os judeus e o judaísmo, o que é falso”, disse o rabino Yisrael Dovid Weiss. “Acusam todos que criticam suas ações vis de anti-semitismo, o que também é uma mentira. Infelizmente há aqueles que odeiam os judeus, porque eles consideram o judaísmo e o sionismo a mesma coisa. Assim, o que os sionistas representam é o perigo para os judeus e, em seguida, eles se apresentam como os salvadores do povo judeu”.

“Consequentemente”, continua a nota, a “cerimônia sionista” em Auschwitz “não é nada menos do que uma afronta brutal à memória daqueles que pereceram no Holocausto”.

Em manifestação pública em Nova Iorque, de megafone não mão, rabino afirma que, antes de Israel, judeus e muçulmanos residiam lado a lado em paz:

"Rezamos todos os dias para o desmantelamento rápido e pacífico do Estado de Israel, para podermos coexistir como fizemos durante centenas de anos. Temos rabbis que podem testemunhar como viveram no velho estado de Jerusalém, no velho estado, na velha cidade de Jerusalém. Viviam porta a porta. Este rabino viveu na velha cidade de Jerusalém antes de 1948, ele nos dirá como viveu e coexistiu com todos os vizinhos árabes. Tomavam conta das crianças uns dos outros. Durante o Yann Kippur, quando as mulheres saiam, os vizinhos muçulmanos tomavam conta de suas crianças, deixavam com eles os objetos mais precisos para guardar e proteger. Como poderia isso acontecer se eles são os nossos inimigos mortais?

É porque não são!

Não se trata de um conflito religioso, isto é um plano sionista a acusar toda gente de ser anti-semita.

Querem paz? Querem uma conferência de paz? Dêem um passo atrás e considerem os fatos. Não os fatos que foram manipulados pela propaganda sionista.

Os fatos reais, como temos vivido durante anos. No Iêmen, no Marrocos, na Tunísia, na Palestina, no Egito. Em que terra árabe os judeus não vivem conjuntamente com os muçulmanos? Sem a necessidade de grupos de direitos humanos?

No Irã! Temos 25.000 judeus vivendo lá, graças a Deus!

Por quê? Porque não se trata de um conflito religioso.

É puramente por causa de um movimento político relativamente recente, que é a antítese e a contradição à religião judaica, que tem milhares de anos. …

O sionismo foi criado há 100 .. para transformar o judaísmo em nacionalidade.

Eles usurparam nosso nome, usurparam nossos símbolos e roubaram nossa identidade. E causam morte e destruição todos os anos, e têm feito isso nos últimos 50 anos, causam morte e derramamento de sangue por causa de uma ideologia chamada sionismo. Eles sacrificam seres humanos indefesos. Corações, almas, eles destroem casas e vidas das pessoas.

Poderemos viver em paz não em um estado israelita, mas em um estado palestino, um só, onde temos vivido há centenas de anos”.

Última modificação em Terça, 04 Junho 2019 11:29

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